(Não é) Muito mais do que futebol

Por Alex Sabino

escócia ingterra

É uma das mais lendárias histórias sobre Sir Alf Ramsay, conhecido, entre outras coisas, pela aversão aos escoceses.

Ele desembarcou em Glasgow com a seleção inglesa antes de partida pelo já defunto British Home Championship. A delegação foi recebida por jornalistas locais.

“Bem-vindo a Escócia, Alf”, disse um deles.

“You must be fucking joking”, foi a resposta.

A recíproca sempre foi verdadeira. Dennis Law preferiu jogar golfe enquanto acontecia a final da Copa de 1966.Diz que ficar sabendo da vitória da Inglaterra sobre a Alemanha foi uma das notícias mais tristes que já recebeu na vida.

Quando, no ano seguinte, a Tartan Army bateu os ingleses em Wembley, foi de Bobby Lennox a ideia de dizer que os escoceses passaram a ser os campeões mundiais. Afinal, quem ganha da seleção considerada a melhor de todas não é superior a esta?

Nesta quinta (18), cerca de quatro milhões de escoceses votam se desejam se separar do Reino Unido. Referendo que não é sobre futebol mas, como tudo na vida, passa por ele. No último sábado (13), os torcedores do Celtic entoaram canção que dizia “Stand up if you’re voting yes” (fique de pé se você vai votar sim – pela independência). Boa parte da torcida se ergueu, mas muitos permaneceram sentados.

Na partida do English Team contra a Suíça, pelas eliminatórias para a Eurocopa, os ingleses ironizaram gritando “todos nós votaremos pelo sim”, como que minimizando a importância da Escócia.

Com as pesquisas apertadas, dando pequena vantagem para o “não”, a possibilidade de independência e o final de uma união com a Inglaterra que dura mais de 300 anos pode colocar por terra também o sonho de alguns dirigentes do país para que acontecesse um movimento no sentido inverso: os clubes esconceses se integrando aos torneios de futebol no país vizinho.

O Celtic sonha em entrar na Premier League, embora o seu futebol esteja mais no nível da Championship, a segunda divisão.

A nação está dividida e a votação pode ser histórica, colocando um ponto de interrogação no futuro do Reino Unido. Fala-se que David Cameron, primeiro-ministro britânico, pode ser obrigado a renunciar por concordar com a eleição. Especialistas econômicos preveem um cenário de caos para os meses seguintes e não se sabe nem mesmo qual a moeda que uma eventual Escócia independente vai adotar.  Alex Salmond, líder da campanha do “sim”,  tem vendido a ideia de que vai continuar com a libra esterlina. O Banco da Inglaterra já mandou tirar o cavalinho da chuva.

Diante de coisas tão mais fundamentais para o funcionamento do dia a dia de um país, por que o futebol seria importante?

Porque os estádios são cenários para manifestações políticas espontâneas ou fomentadas. Entre os anos 70 e 80, as “firmas” de hooligans dos clubes ingleses eram massas de manobra do Partido Trabalhista.

Na Escócia de hoje, líderes de torcidas de Celtic, Rangers, Aberdeen, Hearts e Hibernian foram “convidados” a aderir à causa da independência. Nem todos atenderam ao chamado diante de uma campanha que ficou cada vez mais acirrada. No bom e, principalmente, no mau sentido.

Para o lado esportivo, um dos discursos é a necessidade reforçar a identidade dos clubes nacionais contra o poder econômico da Premier League.

Não importa o resultado das urnas, não será tarefa fácil porque os campeonatos locais perderam força a partir da popularização da liga inglesa e, principalmente, com o aparecimento da Lei Bosman. A Escócia não vai para a Copa do Mundo desde 1998. Não disputa a Eurocopa desde 1996 (já tratamos deste assunto em outro post. Clique aqui).

Nas lojas de esporte da capital Edimburgo, é virtualmente impossível encontrar camisas do Heart of Midlothian e do Hibernian, as duas equipes da cidade. Em compensação, as do Manchester United, Liverpool, Arsenal, Manchester City são facilmente compradas.

Um escocês, Kenny Dalglish, é o maior jogador da história do Liverpool. A santíssima trindade do Manchester United é composta por um inglês (Bobby Charlton), um irlandês (George Best) e um escocês (Dennis Law). Os dois técnicos mais importantes da história de Old Trafford foram  “made in Scotland” (Sir Matt Busby e Sir Alex Ferguson). Na entrada de Anfield estão as Shankly Gates, homenagem a Bill Shankly, o treinador que tornou o Liverpool uma força no futebol mundial. Outro escocês.

Cortar o cordão umbilical entre Escócia e Inglaterra significa também acabar com uma ligação histórica no futebol.

O novo país teria de pedir para ingressar na União Europeia. O que não é certeza e levaria tempo. Com o fim da integração, o que restou do Reino Unido teria de tratar os jogadores escoceses como “não comunitários” depois do período de transição, que seria de 18 meses.

Um desdobramento colateral que remete a 1296, quando Edward I invadiu a Escócia e depôs o rei John. A resposta foi William Wallace derrotando o exército inglês na Batalha de Stirling Bridge.

Bem, se você assistiu àquela chatice de filme do Mel Gibson, “Coração Valente”, deve se lembrar mais ou menos disso.

Dentro ou fora do Reino Unido, a rivalidade entre escoceses e ingleses só fez aumentar. O que preocupa as autoridades para o amistoso entre as duas seleções, marcado para novembro, no Celtic Park.

Pode ser o primeiro confronto com as Escócia sendo um país autônomo.

Neste dia, o futebol pode ser – de novo – o reflexo do que acontece fora de campo, apenas o espectro de uma relação atribulada de séculos.