Aplaudam Casillas

Por Rafael Reis

Casillas

 

Enquete do diário “Marca” aponta que 73,3% dos torcedores querem ver Keylor Navas como titular. Matéria do “As” crava que o técnico Carlo Ancelotti não mudará sua primeira opção para o gol.

A primeira crise do Real Madrid depois da tão sonhada conquista da “Décima” Liga dos Campeões, há apenas quatro meses, transformou em vilão aquele que deveria ser o maior ídolo do Real Madrid.

Iker Casillas, dono da meta merengue quase que ininterruptamente há 14 anos e capitão desde 2010, viveu uma situação que beira o inacreditável para um jogador desse currículo depois da derrota por 2 a 1 para o Atlético de Madri, no sábado.

O goleiro viu a torcida madrilena no Santiago Bernabéu se voltar contra ele e vaiá-lo pela (pequena) falha no primeiro gol do Atlético: um cruzamento na pequena área que não foi interceptado antes de chegar à cabeça de Tiago.

O público é soberano. Se acham que devem vaiar, é preciso encarar e seguir trabalhando. Temos que tentar mudar isso. Estão no direito deles. Para mim, o que resta é responder jogando o meu futebol”, disse, visivelmente abatido, na saída do campo.

É verdade que o tempo não fez bem a Casillas. Aos 33 anos, o veterano em pouco lembra que aquele arqueiro ágil e extremamente seguro que rivalizou com Buffon pelo posto de melhor goleiro do mundo por boa parte desse início de século 21.

Casillas ainda faz um ou outro milagre, geralmente em lances de alta velocidade e quem exigem reflexo. Mas tem acumulado falhas, normalmente errando o tempo de saída de bola. O camisa 1 errou feio na decisão da Liga dos Campeões, foi mal na Copa e continua falhando no Espanhol.

Mas o Real também não tem feito muito para ajudar seu capitão a se recuperar. Dois anos atrás, o técnico José Mourinho comprou briga com ele, colocou-o no banco e passou a tratá-lo  como laranja podre do elenco.

Agora, a diretoria contratou Keylor Navas, destaque da Copa pela Costa Rica. Isso em um clube que tradicionalmente valoriza muito mais quem vem de fora do que as crias da casa e que tem contratar como maior hobby.

Somados todos esses fatores, a pressão por mudanças na meta e a vilanização de Casillas eram quase que inevitáveis.

A torcida porém se esquece que poucos fizeram tanto pelo Real quanto o goleiro. O camisa 1 é um dos últimos exemplares, até mesmo na Europa, de jogadores que passaram a carreira toda no mesmo clube. Tem “el sangre blanco”, como diriam os espanhóis.

Casillas já é o terceiro jogador que mais atuou pelo Real em toda a história. Com 683 partidas, só perde para Raúl (741) e Manuel Sanchís (711). E tem totais condições de superá-los. Ainda faturou cinco títulos espanhóis e três taças da Liga dos Campeões.

Também encheu o torcedor madrileno espanhol de orgulho ao levantar, como capitão, a primeira e única Copa do Mundo da seleção espanhola.

Por tudo isso, permita-me discordar de você, Casillas: “a torcida do Real até tem direito de não querê-lo mais como titular, mas não de vaiá-lo. Só podem aplaudi-lo.”