A maior banda de todas

Por Alex Sabino

tevez albo

O Club Atlético All Boys é mais conhecido por ter sido o primeiro clube de Carlos Tevez. É apenas um fato histórico. O atacante nem deve se lembrar que vestiu um dia o preto e branco do pequeno time do bairro da Floresta, em Buenos Aires. Carlitos nunca está na boca das pessoas que frequentam o acanhado estádio Islas Malvinas.

O All Boys é nota de rodapé na vida de Tevez e a recíproca é verdadeira.

A preocupação da pequena torcida é outra. Sem time, sem dinheiro, rebaixado e com perspectivas sombrias, o patrimônio do Albo é único no futebol mundial. É uma música.

Não se sabe quem a compôs. É das poucas canções de futebol que não fala de glórias. Não conta vantagem. Não xinga os rivais (quer dizer, deseja a morte de alguns, mas de leve…). Fala apenas do simples amor por uma equipe modesta a prometer que “otra vez en Primera van a ver a papá”.

O All Boys é figurante menor do caldeirão que é o futebol na capital argentina, tão imerso em si mesmo que consegue criar rivalidades ferrenhas de bairros vizinhos entre times que se enfrentam de vez em quando. Nas ruas que levam ao Islas Malvinas, pichações na parede amaldiçoam o Argentinos Juniors. Dois times que fazem parte do que é chamado de “quadrilátero da Floresta”.Há também o primo (que se tornou) maior, o Vélez Sarsfield. Também o Nueva Chicago, já na fronteira com a região de Mataderos. O Chacarita Juniors. O Atlanta.

O charme do All Boys é ser pequeno e não ter problema com isso. É ter orgulho dos assados nas calçadas antes dos jogos. Nas conversas de velhos amigos que se encontram na “cancha” uma vez por semana. Nas brincadeiras nas arquibancadas diante da própria limitação técnica dos jogadores. Em lutar contra a crise, a maior da história da agremiação centenária. all boys

Tão grande e profunda que um grupo de sete sócios teve de tomar as rédeas do clube e tentar administrá-lo de alguma forma. Os salários estão atrasados. Ricardo Rodríguez, antigo técnico, concordou em sair sem receber um centavo e acertar a dívida sabe-se lá quando…

Na semana passada, não havia dinheiro para realizar a partida contra o Sportivo Belgrano, pela segunda rodada da B Nacional, a segundona argentina. Os torcedores se tornaram doadores. Passaram a sacolinha para conseguir R$ 60 mil (220 mil pesos argentinos) para abrir o estádio e pagar as contas básicas de um jogo de futebol. Mesmo assim, apenas quatro câmeras de segurança estavam funcionando. O confronto teve de ser adiado de domingo (17)  para segunda-feira (18).

Quando a bola enfim rolou – ou quicou – em gramado que não vê manutenção há meses, a torcida começou a cantar a música. A promessa de que, no final de tudo, o Albo vai voltar à Primeira. E quando isso acontecer “enfim será verdade o que escrevem os jornais, que a maior banda de todas é a banda do All Boys.”

“É uma questão sensível. A crise invadiu o clube e não há outra solução que não seja pedir a colaboração para os associados. E tem de ser em dinheiro vivo, dentro das possibilidades de cada um”, disse o contador  Nicolás Roca.

Roberto Bugallo, presidente que levou o Albo ao rebaixamento no primeiro semestre, foi afastado e ninguém sabe dizer exatamente quanto deve a agremiação. “Não há livros contábeis. Não sabemos o valor da dívida”, completa Roca. O dinheiro que vinha do governo federal das transmissões dos jogos e do programa “Futebol para Todos” secou.

Atletas que mantiveram o time na elite por cinco anos, como o atacante Mauro Matos, entraram na Justiça para receber o que lhes é devido. Matos foi campeão da Libertadores pelo San Lorenzo.

Tão peculiar é o Albo que os torcedores a herdarem a administração do clube são chamados apenas pelos apelidos. Nem todos têm nomes e sobrenomes conhecidos por todos, como em qualquer outra agremiação. Há Daniel Barraza, que deve ser o próximo presidente. Roca, o contador. Os outros são apenas Patricio, Aguirre, Moussa, Delio e Cobo.

Quando a equipe foi rebaixada, em maio deste ano, o goleiro Nico Cambiasso (irmão do volante Esteban Cambiasso, ex-seleção argentina) disse que ninguém deveria chorar pela queda. “O All Boys ficou quatro anos na primeira divisão. Isso é um milagre”, falou.

Quatro temporadas em que se viveu um conto de fadas. Para os padrões deles. Chegou a brigar pelo título nacional no Apertura de 2012. Esteve a um pênalti de ir à final da Copa Argentina do ano passado. O nome do atacante Cámpora, que perdeu a cobrança decisiva contra o Arsenal de Sarandí, virou quase palavra maldita no Islas Malvinas. Se ele tivesse convertido, o Albo teria se classificado. Sob o comando de Pepe Romero (o Alex Ferguson da Floresta), o time parecia ter os pés no chão e dificilmente era batido em casa.

A realidade bateu à porta e a queda era inevitável. É questionável que consigam voltar à Primeira Divisão para a próxima temporada. Mesmo com dez equipes (DEZ) sendo promovidas, já que o Campeonato Argentino de 2015 terá 30 clubes.

O que sobrou para o All Boys, no final de tudo, é o sonho de voltar. Desejo que fez com que alguém na Floresta compusesse a música mais legal de uma torcida no futebol mundial.