Padrão Conmebol

Por Rafael Reis

Confesso que estava um pouco mal acostumado. Minha última partida in loco antes da vitória por 1 a 0 do San Lorenzo sobre o Nacional (PAR), que deu ao time do papa Francisco o inédito título da Libertadores, havia sido só a Alemanha 1 x 0 Argentina. Isso, a decisão da Copa do Mundo.

É lógico que não esperava que o Nuevo Gasómetro fosse tão bom quanto o novíssimo (e caríssimo) Maracanã. Mas acreditava que o estádio argentino, inaugurado há só 21 anos, não parecesse uma das mal-cuidadas arenas brasileiras levantadas nas décadas de 1960 e 1970.

Infelizmente, estava errado. A cobertura do último jogo da Libertadores, da consagração de um gigante que esperou mais de 50 anos para levantar sua mais cobiçada tala, foi uma das experiências profissionais mais complicadas da minha carreira.

A multidão sem ingressos, saltando, gritando e enchendo a cara do lado de fora do estádio, assustava. O susto virou medo quando uma boa alma argentina veio com o precioso conselho: “agarre sua mochila, não deixe nada nos bolsos e, em hipótese alguma, deixe seu tíquete a vista”.

Assim que pisei na área interna da arena, percebi que a falta de entradas não seria problema para ninguém. Não foram um ou dois os torcedores que vi pulando os muros, observados por policiais inertes. O Nuevo Gasómetro não estaria lotado. Certamente, ficaria superlotado. Cenário ideal para uma tragédia.

Para ajudar, não havia espaço na área destinada à imprensa escrita. O número de jornalistas credenciados era infinitamente maior que as poucas cadeiras com tomada que estavam separadas para repórteres acompanharem a partida e enviarem seus textos.

Acabei ficando no meio da torcida, dividindo duas cadeiras com três pessoas. Outros colegas jornalistas tiveram menos sorte. Só encontraram abrigo no telhado do estádio, sem nenhum tipo de proteção para o abismo que levava ao campo.

No meio da torcida e espremido pelo espaço superlotado, ligar o computador para escrever o texto era uma tarefa impossível. Tive de apelar para o caderninho. Foi em um bloco de notas que montei à caneta o relato que passei a limpo no computador posteriormente e que o leitor teve acesso na edição de quinta-feira da Folha.

Após o apito final, veio a tarefa mais estressante de todas: conseguir uma conexão de internet que me permitisse enviar o texto. A falta de sinal no Nuevo Gasómetro já havia me deixado sem comunicação com a redação, aqui no Brasil, por algumas horas. O tamanho e o conteúdo do texto teriam de ser aqueles combinados previamente, sem possibilidade de alteração.

O 3G do chip Movistar comprado em Buenos Aires simplesmente não funcionava (nada muito diferente dos estádios brasileiros em jogos que não são da Copa). O wi-fi disponibilizado aos jornalistas pelo San Lorenzo (a senha era um óbvio “Francisco”) não aguentava o fluxo de informação e não era mais que uma lenda.

Quando o prazo para o fechamento do jornal apertou e o desespero bateu, até parece que o papa Francisco decidiu agir. Como por milagre, encontrei um colega com internet funcionando. Foi ele que enviou por e-mail meu texto para a redação da Folha. O pen drive foi emprestado pela colega Josiene Santana.

Agora só faltava retornar ao hotel. Só? Os raros táxis que passaram em frente ao estádio foram disputados a tapas pelos torcedores que festejavam o título. O primeiro carro livre que consegui parar era de um taxista que estava voltando para casa e não queria novos passageiros. O segundo pediu o dobro pela corrida do que seria o valor do taxímetro. Enquanto eu pensava se aceitava ou não, ele se mandou.

O segundo milagre do papa Francisco foi um grito dirigido a Nicholas Vital, autor do livro “Libertadores: paixão que nos une”, que estava comigo. Era a van da Bridgestone, patrocinadora da Libertadores e me convidou a acompanhar a decisão, que apareceu para nos resgatar.

Para quem se acostumou ao Padrão Fifa, não foi fácil reencontrar o Padrão Conmebol.

O jornalista RAFAEL REIS viajou a convite da BridgestoneLibertadores