A lei do mais forte

Por Alex Sabino

FBL-ENG-ESP-MAN UTD-VALENCIA-FRIENDLY

Uma das piadas mais comuns da época em que Sir Alex Ferguson ainda dava as ordens em Old Trafford era que o melhor emprego do mundo não seria substituí-lo. Seria entrar no lugar de quem o substituísse.

Louis Van Gaal é este sujeito.

O risco é calculado. Seus pés são grandes demais para ocupar os sapatos de David Moyes, um técnico que não quis crescer para ficar do tamanho do Manchester United. Em vez disso, tentou fazer a equipe virar um Everton. O preço disso foi o sétimo lugar na Premier League, ficar fora da Liga dos Campeões da Europa e demissão após apenas dez meses.

O holandês está em situação que, para ele, é perfeita. Sempre gostou de um desafio e não é o tipo de pessoa a ter qualquer dúvida a respeito do próprio talento. Estamos falando de um treinador que não teve o menor pudor em baixar as calças e mostrar as partes íntimas para os jogadores do Bayern de Munique. Tudo isso para deixar claro quem estava no comando.

O Campeonato Inglês, que começa neste final de semana, será fascinante também pela briga de egos nos bancos de reservas. Van Gaal cai com gosto dentro de uma jaula em que José Mourinho, Arséne Wenger, Brendan Rodgers e Manuel Pellegrini brigam para ver quem é o rei.

Impagável será descobrir como como ficará o  relacionamento com Mourinho. Dois técnicos que têm certeza serem a primeira bolacha do pacote. São amigos. Resta saber se continuarão assim enquanto disputam pelos troféus no mesmo país. Pode ser que sim porque o português sempre se deu às mil maravilhas com Alex Ferguson, conhecido por ser e agir como uma espécie de Don Corleone dos técnicos no Reino Unido.

É um trem que pode sair dos trilhos. Mourinho, apesar de toda a conversa fiada do apelido “the happy one” desde a volta ao Chelsea no ano passado, continua acreditando ser capaz de operar milagres. É o mesmo que, na primeira reunião com Roman Abramovich, em 2004, recebeu uma lista de reforços do dono do clube inglês. Zidane, Shevchenko, Ronaldo… Os nomes naquele papel eram a fina flor do futebol mundial à época.

“Você não precisa de nenhum desses superstars no seu time”, ele respondeu, na lata, ao magnata russo.

“Não?”

“Não. Você só precisa de um superstar para fazer o Chelsea ser campeão. Eu.”

Apesar de dizer continuar o mesmo de sempre, Van Gaal aprendeu com o passar dos tempos. Ao escolher Wayne Rooney para usar a braçadeira de capitão, reforça a intenção de manter uma base inglesa. Nada de reforços preferencialmente holandeses, como aconteceu quando dirigia o Barcelona. Apesar do que possam dizer, os atletas gostam de perceber que existe alguém no de pulso firme no  comando e que esta pessoa está acostumada a ganhar. Não resta dúvida de que o novo técnico do Manchester United se encaixa nessa descrição.

Desde o início, marcou suas diferenças em relação a David Moyes e também Alex Ferguson. Não existe isso de dizer que contratações são caras demais no futebol atual e que é preciso ter calma. Não. Deixou claro querer novos jogadores. Só chegaram Andres Herrera e Luke Shaw até agora. Negociações alinhavadas por Moyes.

Os dois antecessores do holandês eram cautelosos nas declarações para a imprensa. Especialmente Ferguson, ávido por proteger a família dona do clube. Era um jogo duplo, claro. Fazia isso para concentrar o poder nas suas mãos porque fazia dos Glazers, ao mesmo tempo, reféns do seu carisma, trabalho e vitórias.

Van Gaal não quer saber disso. Sabe que não vai ficar em Old Trafford por 20 anos. Ele quer vencer agora e não montar uma base para o futuro. Apesar disso, é conhecido por valorizar as categorias de base, garotos que costumam melhorar em suas mãos. Nunca deixou ninguém ter dúvidas sobre o que acreditava poder fazer. Ao ser contratado para o primeiro trabalho de técnico, no Ajax, em 1991, cumprimentou o diretor da equipe na frente da imprensa e disse para todos ouvirem: “parabéns por ter contratado o melhor treinador do mundo”. Sem qualquer senso de diplomacia, ao chegar no Barcelona, em 1997, afirmou haver conquistado mais títulos em seis anos de Ajax do que o Barça em um século.

Uma das primeiras coisas que disse para os repórteres em Manchester foi que o time é desequilibrado. Por isso, teve de mudar o esquema tático. Escalou o mesmo 3-4-1-2 que usou com a Holanda na Copa deste ano, no Brasil.

As primeiras informações (vazadas possivelmente pelos jogadores) são que os treinos sob a batuta de Van Gaal são bem melhores do que na época de Moyes, meticuloso até demais.

Pode ser que ele trave duelos memoráveis também fora de campo com Arséne Wenger, francês elegante, educado, de fala mansa e que usou o discurso do futebol bonito para se manter no comando do Arsenal apesar de ter passado nove anos sem ganhar nada. Provocado, Wenger desce do salto sem cerimônias. Ao perder a semifinal da Copa da Inglaterra de 1999 para o United de Ferguson – em uma das partidas mais memoráveis da história -, se recusou a cumprimentar o adversário após a derrota.

Se mergulhar na rivalidade com o Liverpool, será impossível ficar longe dos atritos com Brendan Rodgers, um técnico apaixonado pelo som da própria voz e capaz de falar horas a fio sobre o próprio trabalho. Tanto que assegurou que seu time “já provou” conseguir suportar a pressão de uma disputa pelo título. Isso apesar de ter se desintegrado espetacularmente nas rodadas finais da Premier League na última temporada.

Manuel Pellegrini pode ter o charme de um tratamento de canal, mas comanda os atuais campeões nacionais, uma máquina azeitada para ganhar partidas de futebol.

A Premier League não é um lugar para meninos, tanto que Roy Keane, ao ser perguntado sobre a maior fraqueza de Alex Ferguson, 13 vezes campeão inglês, respondeu: “ser impiedoso.”

“E qual a maior virtude dele?”

“Ser impiedoso.”

Van Gaal sabe bem do que se trata. Quando foi apresentado a Gerard Piqué quando este tinha 13 anos. Deu-lhe um empurrão tão forte que jogou o garoto no chão.

“Você é muito fraco para ser zagueiro do Barcelona”, disparou, antes de virar as costas e ir embora.