‘Diga-lhe que ele é o Pelé’

Por Alex Sabino

CELTIC DE GLASGOW VS. LEGIA VARSOVIA

O futebol escocês é peculiar. Em histórias e personagens. David MacParland, técnico do pequeno Partick Thistle na década de 70, apressou o médico para entrar em campo para atender ao seu atacante, em partida contra o Celtic. O jogador havia batido com a cabeça no gramado.

“O que houve”?,  perguntou quando o doutor voltou.

“Ele não se lembra quem é”, respondeu.

“Diga-lhe que ele é o Pelé”.

A Escócia nunca foi uma potência no futebol, mas nenhum outro país foi tão afetado pela explosão financeira no futebol causada pela Lei Bosman.

Entre 1974 e 1998, o país esteve em todas as Copas, menos a de 1994. Nunca passou da primeira fase, mas isso aconteceu não apenas em incompetência. Também por azar. Em 1974, deveria ter ganhado do Brasil, país para quem perdeu roubado em 1998. Foi eliminado pelo saldo de gols em 1974 e 1982. Precisava apenas de um empate contra o Brasil para se classificar em 1990 e Taffarel fez defesa sobrenatural nos minutos finais para evitar o gol de Mo Johnston.

O Celtic faturou a Copa da Europa em 1967 (com todos os jogadores nascidos nas vizinhanças do Celtic Park) e foi vice em 1970. O Rangers ganhou a extinta Recopa europeia em 1972 e foi vice em 1961 e 1967. O clube só não chegou à decisão da Champions League de 1993 porque o Olympique de Marselha conseguiu uma goleada suspeitíssima contra o Spartak Moscou.

Em 1983, o Aberdeen de Alex Ferguson venceu a final da Recopa diante do Real Madrid. Um resultado impensável nos dias atuais.

Vocês entenderam… A Escócia não era gigante, mas estava longe de ser anã.

A disparada nos salários dos jogadores, o aumento do dinheiro do televisionamento, a expansão da Champions League e a criação da Premier League dizimou o campeonato local, que passou a viver, mais do que nunca, da rivalidade entre Celtic e Rangers.

Em fevereiro de 2012, os azuis, clube dos protestantes, quebrou. Teve de ser refundado e recomeçou na quarta de divisão como Rangers FC.

O Celtic conseguiu brilharecos na Liga dos Campeões. Teve vitória épica sobre o Barcelona em 2012. Derrotou o Manchester United em 2009, quando chegou às oitavas de final. Pouco.  Tornou-se um time de nível intermediário no continente.

Para não fugir do pitoresco do futebol local, o time dos católicos foi eliminado por 6 a 1 no agregado pelo Legia Varsóvia nas fases preliminares do principal torneio europeu desta temporada. Ganhou a classificação da Uefa porque os poloneses colocaram em campo um jogador irregular nos acréscimos do segundo jogo. Cabe recurso, mas o Celtic tem chance real de atingir a lucrativa fase de grupos da competição. Precisa passar pelo Maribor, da Eslovênia.

Neste final de semana começa o campeonato escocês 2014-2015. Talvez o único país do universo do futebol em que a segunda divisão será mais interessante que a primeira.

Das cinco principais equipes nacionais, três estão na divisão de acesso. Todo mundo está careca de saber que o Celtic será campeão da Premiership. O Aberdeen é a zebra que vai tentar incomodar. A briga para subir será bem mais interessante, com Rangers e os dois clubes de Edimburgo: Heart of Midlothian e Hibernian.

Neste domingo (10), o Rangers recebe o Hearts.

O Rangers faliu. O Hearts por muito pouco não foi pelo mesmo caminho e começou a temporada passada com 10 pontos negativos por causa dos problemas financeiros. O Hibernian caiu vexatoriamente, em casa, após playoffs contra o minúsculo Hamilton Academical. Estreou na segundona neste sábado (9), derrotando o Livingstone por 2 a 1.

O blog esteve nas lojas oficiais dos dois clubes de Edimburgo em julho. Os funcionários estavam proibidos de sugerir nomes de jogadores para serem colocados nas camisas dos torcedores. Pelo simples motivo de que ninguém sabia quem formaria parte dos elencos profissionais no torneio que estava por começar.

E diziam isso com um toque de diversão na voz, quase sorrindo, como que constatando a comédia que era chegar àquela situação e ao mesmo tempo que o grande rival.

A mesma ironia que fez Ally MacLeod, técnico do Ayr United, pegar a tabela antes do início do campeonato em 1977 e ir riscando, um por um, os adversários.

“Deste vamos ganhar. Contra este, passaremos fácil…”

Até chegar na confronto contra o Glasgow Rangers, na reta final do segundo turno.

“Rangers? Eles não vão querer nos enfrentar. Ganharemos.”

Seu auxiliar não acreditou.

“Mas chefe… Eles são os atuais campeões. É o Rangers!”

“É… Mas quando chegar a data desta partida, estaremos com uma liderança tão grande que eles estarão desmotivados. Nós vamos vencer”.

O Ayr United acabou rebaixado.