O sonho da Fifa pode não ser só sonho

Por Alex Sabino

Bruce Arena, técnico da seleção dos Estados Unidos nas Copas de 2002 e 2006, lembra do tempo em que achar um jogo de futebol na TV do país era um calvário.

“Hoje é um atrás do outro. Até enjoa…”, se diverte.

É o sonho da Fifa. A popularização do futebol na terra onde o esporte foi batizado de soccer é o desejo dos dirigentes da entidade e não é de hoje. Em nome disso, os Estados Unidos sediaram a Copa do Mundo de 1994.

“A gente sentia que tinha uma missão. Além de vencer jogos, havia a necessidade de atrair a atenção das pessoas”, afirma o ex-zagueiro Alex Lalas. Ele fez parte da equipe eliminada pelo Brasil nas oitavas de final.

As campanhas da seleção nos últimos dois mundiais fizeram o país viver uma febre de futebol como não se havia visto antes. A decisão entre Argentina e Alemanha, há duas semanas, foi assunto mais comentado no Facebook entre usuários norte-americanos do que a Stanley Cup, a final do hóquei no gelo.

A partida contra Portugal, na fase de grupos, atraiu 24,7 milhões de telespectadores. A derrota para a Bélgica, nas oitavas de final, teve audiência semelhante a da World Series, a série final do beisebol.

O amistoso entre Manchester United e Real Madrid, no último sábado (1), teve público de 109.318 pessoas. Desafia a inteligência achar que grande parte dessa estatística se deve a pessoas que saíram da Espanha ou Inglaterra para acompanhar um jogo de pré-temporada.

“O problema deste esporte nos Estados Unidos é que não decola o ano todo. Você não pode colocar a MLS (Major League Soccer) no mesmo patamar das quatro ligas mais importantes do país. Está bem atrás”, explica Robert Passikoff, especialista em fidelização do consumidor no mercado na América do Norte.

Ele compara o futebol a um cometa. Passa uma vez a cada quatro anos, atrai a atenção das pessoas e desaparece. Está falando da Copa do Mundo.

A audiência do Campeonato Inglês no país ainda supera de longe a dos jogos da liga nacional, a MLS. Mas os especialistas perceberam o potencial de crescimento do futebol.

“É o esporte dos jovens e é melhor estar do lado dos jovens do que dos velhos”, argumenta Adrian Hanauer, um dos donos do Seattle Sounders, o time que arrasta mais de 40 mil pessoas por jogo em casa na MLS.

Segundo a ESPN dos Estados Unidos, o soccer é o segundo esporte mais popular entre homens de 12 a 24 anos. Acima do basquete e do beisebol, só perdendo para futebol americano.

Na última temporada europeia, a rede NBC pagou US$ 250 milhões pela exclusividade dos jogos do Campeonato Inglês e entupiu a programação aberta e a cabo com partidas.

O dado mais animador para os dirigentes da Fifa: 90% dos entrevistados na pesquisa da ESPN disseram já terem praticado o esporte ou têm um familiar próximo que joga.

Na década de 70, quando a NASL e o New York Cosmos provocaram a primeira explosão do futebol nos Estados Unidos, o grande problema era que os nativos não atuavam. Era algo exótico de estrangeiros.

A média de público da MLS no ano passado foi de 18.608 pessoas. Mais do que os 14.951 do Campeonato Brasileiro. Após a campanha da última Copa do Mundo, o atacante Clinton Dempsey foi aplaudido de pé no programa de entrevistas de David Letterman, um dos mais populares da TV aberta.

É o bastante?

Segundo Marc Gains, responsável por projetos esportivos como a construção do novo Yankee Stadium (estádio de beisebol do New York Yankees, o time mais popular dos Estados Unidos em qualquer esporte), o soccer pode estar no caminho certo, mas vai precisar de tempo. O mundial da Fifa não serve como medidor da popularidade real.

“A Copa do Mundo tem um componente de patriotismo e é melhor recebida. É evento que ultrapassa o limite do esporte. O soccer em si precisa de repetição e fazer com que o grande público se acostume a ver jogos o ano inteiro. Não é tão simples assim”, avisa.