A seleção mais legal das Copas

Por Alex Sabino

dinamarca

Houve um tempo em que a Copa do Mundo era ainda mais fascinante do que é hoje. Surpresas eram possíveis. Uma seleção com jogadores que você jamais tinha ouvido falar aparecia e começava a ganhar um jogo atrás do outro.

Não havia internet. Um golaço marcado por um garoto do Sub-17 do Barcelona não estava sendo compartilhado no Twitter e Facebook horas depois. Sem TV a cabo, as emissoras passavam partidas internacionais muito de vez em quando. A Rede Globo mostrava o Campeonato Italiano no domingo de manhã em 1984 e 1985. Também transmitia a final da Copa da Inglaterra. Só.

Este era o nosso mundo em 1986, quando a Dinamarca “surgiu”.

Na América do Sul, nunca havíamos visto um uniforme com um design daqueles. A torcida tinha bonés com mãos que batiam palmas. Tudo isso soa brega hoje em dia, mas lembrem-se: estávamos nos anos 80. As pessoas usavam roupas com ombreiras…

Mas o  futebol não tinha nada de cafona. Ofensivo, veloz e de tirar o fôlego. Era capaz de golear em um dia e ser goleada no seguinte. Assim aconteceu. Enfiou 6 a 1 no Uruguai e depois acabou eliminada ao perder por 5 a 1 para a Espanha.

A Dinamarca de 1979 a 1986 foi a seleção mais cool de todos os tempos. Tinha técnico com experiência em vodu, menino prodígio cobiçado por todos os grandes clubes da Europa, goleiro que era guarda de trânsito e artilheiro colunista de revista pornográfica.

A história é contada no livro “Danish Dynamite: The Story of the Football Greatest Cult Team” (Dinamite Dinamarquesa: A História do Maior Time Cult da História), escrito por Mike Gibbons, Lars Erkisen e Rob Smyth. Sem tradução em português, a obra pode ser comprada em sites do exterior, como a Amazon.

danish dynamite

“Eu tinha oito anos na Copa de 1986. O futebol inglês era chato. A Dinamarca era incrível. Era como se fosse um carnaval na Copa do Mundo”, relembra Gibbons ao blog.

O futebol no país sempre foi peculiar. A federação local foi uma das fundadoras da Fifa, mas nunca conseguia sequer chegar perto de classificações para o Mundial ou Eurocopa. A seleção aparecia rotineiramente na última ou penúltima posição nas fases de classificação, apesar de produzir jogadores talentosos. Até 1971, só atletas amadores eram convocados. Se alguém se destacava na liga local e era vendido para um clube profissional de outro país, pronto: não vestia mais a camisa da Dinamarca.

É estranho, mas não tanto quanto a trajetória de Niels Bohr, um dos primeiros nomes famosos do esporte nacional. Frustrado por não conseguir chegar à seleção, ele largou a bola para tentar fazer algo que o deixasse “marcado”. Ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1922, trabalhou no Projeto Manhattan (que desenvolveu a bomba atômica), fundou a CERN (entidade que inventaria a internet décadas depois), foi a primeira pessoa a receber o prêmio Átomos pela Paz e tem um elemento na tabela periódica batizado em sua homenagem.

Tudo mudou quando um alemão chamado Sepp Piontek aceitou dirigir uma seleção tão desorganizada que os jogadores chamavam de “concentração” um bordel em Copenhagen. Preben Elkjaer-Larsen, o irascível atacante que seria campeão italiano pela pequena Hellas Verona em 1985, pagava as multas por atraso antecipadamente. Ele já sabia que não voltaria na hora marcada. Bem-vindos a 1979.

Ex-defensor da seleção alemã, Piontek veio ao Brasil em 1965 para disputar amistosos. Bateu tanto em Pelé que foi apelidado pela imprensa brasileira de “alemão louco”.

Mais maluco ainda ele mostrou ser ao aceitar o convite do ditador Jean-Claude Baby Doc Duvalier para treinar a seleção do Haiti em 1976. Tinha de visitá-lo periodicamente para falar sobre táticas. Quando recebia o pagamento, as notas vinham molhadas. Haviam acabado de ser impressas. Não deu certo. Em parte pela qualidade da equipe haitiana mas também porque, nas noites anteriores aos jogos, os jogadores se trancavam em um quarto para beber e praticar sessões de vodu. Viu-os ficarem em estado alucinógeno tão grande que passavam dias como zumbis.

Quando reclamou do cardápio na concentração, o cozinheiro sacou uma metralhadora.

Era bem mais fácil ser técnico a Dinamarca, apesar das colunas sobre futebol de Elkjaer para uma revista de mulheres peladas. Conseguiu unir as duas coisas que gostava em uma tacada só. Quem pode condená-lo?

No final dos anos 70, a Dinamarca tinha uma geração muito boa, que deveria brigar realmente por vagas nos principais torneios do mundo. Frank Arnensen e Soren Lerby atuavam no Ajax. Morten Olsen era do Racing, da Bélgica, mesmo país em que Elkjaer jogava, só que pelo Lokeren. Rontved era o astro do Werder Bremen. Allan Simonsen, pelo Borussia Monchengladbach foi eleito o melhor jogador da Europa em 1977.

O jogo em Wembley contra a Inglaterra, em 1983, é considerada a partida que mudou a história do futebol no país nórdico. A vitória por 1 a 0 colocou a Dinamarca no caminho para a Eurocopa de 1984. Torneio em que chegou às semifinais e perdeu apenas nos pênaltis para o rival que viria a ser sua nêmesis: a Espanha.

Piontek diz ter inventado o 3-5-2. Pode não ser verdade, mas a Dinamarca dos anos 80 popularizou o conceito, com Morten Olsen fazendo o papel de zagueiro que saía jogando e se tornava volante, se preciso.

“A ideia de três defensores é antiga. Mas Piontek difundiu o pensamento. Ele é personagem fantástico. Hoje em dia, é figura ainda muito popular na Dinamarca e dá palestras após jantares. Conta histórias incríveis. Conversamos com ele por três horas e não parou de falar”, afirma Gibbons.

Foi nesta competição que a Europa tomou ciência de outra faceta do futebol dinamarquês: a torcida. Estavam em todos os lugares na França sem arrumar uma única briga. A alegria fez com que fossem chamados de Roligans, um contraponto aos violentos Hooligans. Eles se misturavam aos jogadores ao hotel, bebiam e conversavam naturalmente.

Na Copa de 1986, teve gente que vendeu a própria casa para acompanhar a seleção no México, quando os jogadores usaram uniforme desenhado pela Hummels que até hoje é item de colecionador. A equipe era recebida nos estádios aos gritos dos torcedores neutros de “Viva Dinamarca”. A expressão “grupo da morte” nasceu quando Alemanha, Uruguai, Dinamarca e Escócia foram emparelhados na mesma chave no Mundial daquele ano. Os dinamarqueses ganharam os três confrontos.  Quando foram eliminados, de novo pela Espanha, e foram embora, os funcionários do hotel onde estavam hospedados choraram.

Por incrível que pareça, a geração de 1992, que foi campeã europeia sob o comando de Richard Moller Nielsen (ex-assistente de Piontek) não tinha o mesmo carisma. Quando questionado sobre o maior jogador de todos os tempos, Xavi não titubeou para responder: “Michael Laudrup”.

Vários outros deles deixaram as marcas por onde passaram. Elkjaer é até hoje um dos maiores ídolos da Verona, chamado de “il Síndaco” (o prefeito). Arnensen virou conceituado diretor de futebol com passagem por vários clubes do continente. Jesper Olsen é uma figura cult no Manchester United.

Na Copa do Mundo, o melhor resultado da Dinamarca foi as quartas de final de 1998. Como você deve saber, eles não estão no torneio que começa no próximo dia 12, no Brasil.

“É uma pena. O Mundial precisa de times assim”, constata Gibbons.

Johna Cruyff disse que a Holanda de 1974 se tornou imortal porque não foi campeã. A Dinamarca de 1986 não ganhou, mas também não será esquecida.