Quatro anos depois, sem a quarta Copa

Por Alex Sabino

MLS: Los Angeles Galaxy-Practice

O vídeo tem mais de 4,5 milhões de visualizações. Quatro anos após ter sido feito, ainda é um hit no Youtube. É sinal de que, guardadas as devidas proporções, o futebol nos Estados Unidos ganhou certa relevância.

As imagens mostram, ao redor do país, as reações de torcedores ao gol de Landon Donovan, contra a Argélia, na Copa do Mundo de 2010. Foi o lance, aos 49 do 2º tempo, que colocou dramaticamente a seleção nas oitavas de final do torneio.

Apesar do momento de glória ainda lembrado em 2014, havia sinais de que Jürgen Klinsmann não levaria o atacante para o Mundial deste ano no Brasil. Mesmo assim, poucos acreditavam que isso aconteceria.

Aconteceu.

Em janeiro, a seleção norte-americana esteve no Brasil para realizar um período de treinos no CT da Barra Funda, do São Paulo. O assessor de imprensa da Federação do país deu dura em repórter de TV que fez uma pergunta engraçadinha para Donovan.

“Você tem noção que ele é o jogador mais importante da história do futebol nos Estados Unidos?”, questionou.

Não apenas isso. É um dos melhores garotos-propaganda do esporte em um país que sempre preferiu outras modalidades. Jogou na Europa. Passou pelo Everton. Foi para o Bayern de Munique, onde o treinador era também Klinsmann.

“Ele não é bom o bastante para jogar no time reserva do Bayern”, reclamou o dirigente e ex-atacante, Uli Hoeness.

Não se pode negar a importância dele para a seleção que os norte-americanos chamam estranhamente de USMNT (United States Men’s National Team). Donovan participou das últimas três Copas do Mundo. Fez cinco gols (o maior artilheiro do país no torneio). Alguns deles, históricos.

Além do anotado contra a Argélia, iniciou a reação contra a Eslovênia, também em 2010. Era um garoto de 20 anos quando abriu o caminho para os Estados Unidos derrotarem o grande rival México, nas oitavas de final em 2002. O segundo melhor resultado do país na história da competição.

Pode até ser o melhor, se você considerar as circunstâncias em que o torneio de 1930 aconteceu, quando a equipe norte-americana terminou em terceiro.

Seus 57 gols em 156 partidas são o recorde nacional.

“Eu não necessariamente escolhi os 23 melhores jogadores. Escolhi os 23 que formam o melhor time”, disse Klinsmann, ao explicar a convocação.

Donovan, logo após o corte, divulgou curta mensagem em sua conta no Facebook dizendo estar decepcionado e que será o “torcedor número 1” da seleção. Depois, concedeu entrevista coletiva em que afirmou ser merecedor de vaga entre os convocados.

O lugar que seria do atacante de 32 anos foi ocupado por Julian Green, 18. Uma revelação do Bayern de Munique, nascido na Flórida mas de mãe alemã, que recusou a possibilidade de defender a nação tricampeã do mundo para jogar pelo país em que nasceu. Klinsmann negou ter feito acordo com o jogador para chamá-lo para o Mundial e, assim, garantir que ele escolhesse os Estados Unidos.

Donovan não foi o único nome experiente excluído. O treinador também abriu mão de Clarence Goodson, 32, e Maurice Edu, 28.

Um dos motivos para a decisão é a exigência física. A seleção norte-americana é a que mais vai viajar na primeira fase. Joga em Natal (Gana), Manaus (Portugal) e Alemanha (Recife). No intervalo entre uma partida e outra, volta para São Paulo. Em amistoso recente contra o México, Klinsmann viu Donovan desabar fisicamente no segundo tempo e ter péssimo desempenho.

“Eu não posso treinar 12 dias seguidos e estar bem nos 12 dias. Fisicamente, não é possível. Meu corpo não aguenta, estou ficando velho”, reconheceu o jogador.

Basta olhar as declarações recentes de Klinsmann e seu modus operandi para perceber que Donovan nunca esteve entre os preferidos. Até porque o treinador sempre defendeu a ideia de que ninguém possui lugar cativo. Quem treina bem, joga.

Três dias após ter sido esnobado, Donovan fez o segundo gol da vitória do LA Galaxy sobre o Philadelphia e comemorou de forma emocionada. Era seu 135º gol na Major League Soccer e a jogada o transformou no maior artilheiro da história do torneio.

“A imprensa pensa que ele [Donovan] é intocável. A imprensa pensa que ele deveria estar garantido na Copa baseado no que fez no passado. Não é assim que funciona. Eu tenho de escolher os 23 melhores jogadores baseado no que eu vejo agora”, explicou.

Esta é a raiz da controvérsia. Para os torcedores da seleção norte-americana (ou USMNT), Donovan é o bezerro de ouro. Um dos poucos heróis disponíveis. Para Jurgen Klinsmann, ele mesmo ex-atacante de sucesso internacional e campeão mundial, se trata de apenas mais um jogador.