Somos todos Atlético

Por Alex Sabino

 

Às favas com a imparcialidade.

Neste sábado (24), às 15h45 (de Brasília), somos todos Atlético.

A mesa está toda posta para o Real Madrid faturar o título da Liga dos Campeões da Europa. Cristiano Ronaldo joga em “sua casa”, o clube é muito mais rico e poderoso do que o vizinho de cidade. Ainda existe o estigma dos “galáticos”.

Existe a busca obsessiva pela tal “la décima”.

É uma boa história. Mas a do Atlético de Madri é muito melhor. Muito além de simplesmente a tendência do ser humando de torcer por aquele que é, teoricamente, o mais fraco.

Todo torcedor acredita cegamente que o seu clube é sofrido, perseguido e faz as coisas sempre do jeito mais difícil.

Geralmente é mentira. No caso do Atlético, é a mais pura verdade.

A não ser por alguns anos na década de 70, os colchoneros sempre foram vistos (justificada ou injustificadamente) como o primo pobre. O Atlético também passa a mensagem de que chegar ao fundo do poço não é nada, quando se sabe o caminho de volta.

Passou dois anos na segunda divisão após cair em 1999-2000. Justamente a temporada em que o Real Madrid conquistou o título europeu contra outro rival espanhol de menos peso: o Valencia.

Ao voltar para a elite, patinou na faixa intermediária da tabela, nunca abandonado pelos seus torcedores, eternos alvos de gozações na capital espanhola.

Não por acaso, ao fazer o gol do título da Copa do Rei contra o mesmo adversário, em 2013, Miranda disse dedicar a conquista ao seu filho e a todos os garotos que são zombados na escola por torcerem para o Atlético.

E não é fácil virar as costas para a equipe que, na mesma cidade, gosta de arrotar ser a mais rica e vencedora do futebol mundial. O Real Madrid tem nove títulos da Liga dos Campeões. O Atlético chegou a uma final, em 1974. Esteve a segundos de levantar a taça, mas levou o empate do Bayern de Munique e depois foi humilhado na partida-desempate. Acabou goleado por 4 a 0.

Mesmo com as restrições orçamentárias, renasceu de verdade nos últimos anos. Conquistou a Liga Europa de 2012, a Copa do Rei de 2013 e o Campeonato Espanhol de 2014. Tudo sob o comando de um argentino que foi ídolo do time campeão nacional de 1996, mas sem grande experiência como técnico.

Treinador que faz do apelo à emoção dos seus jogadores e uma disciplina tática impressionante as principais armas.

“Diego Simeone é um deus. Por ele, nós saltaríamos de uma ponte”, disse o volante português Tiago.

Não faltasse mais nada, como toda grande história, há o componente sobrenatural. Luis Aragonés foi tricampeão espanhol como jogador pelo Atlético (1966, 1970 e 1973). No cargo de técnico, chegou ao título de 1977 e faturou a Copa do Rei em 1976, 1985 e 1992. Foi quem tirou o clube da Segunda Divisão em 2002.

Ele morreu em fevereiro deste ano, de leucemia. Dois meses antes, deu a última entrevista.

“Antes de morrer, gostaria de ver o Atlético campeão europeu”, disse.

Até no Além, somos todos Atlético.