Gracias, viejos!

Por Alex Sabino

Em 1995, Massimo Moratti assistiu a um jogo entre Banfield e River Plate, pelo Campeonato Argentino. O empresário, que meses antes havia colocado o controle da Internazionale de volta ao seio da família, queria analisar um meia chamado Ariel Ortega.

Seria sua primeira contratação para seguir os passos do pai, Angelo Moratti, presidente do time de Milão nos anos dourados das décadas de 50 e 60. Ele não gostou de Ortega, mas havia um lateral-direito no Banfield… Ele imediatamente se interessou e fechou negócio.

Javier Zanetti.

Dezenove anos depois, Moratti entregou uma placa placa para o defensor como gesto de agradecimento. “Zanetti sempre nos fez orgulhosos de ser interistas”, disse o agora ex-presidente. “Obrigado por terem suportado a um velho como eu. Não tenho como pedir mais”, agradeceu o jogador, 40 anos, que prometeu continuar ligado à equipe. Possivelmente, como dirigente. Torcedores invadiram o campo para abraçá-lo nos minutos finais do confronto com a Lazio.

Por ironia do futebol, outro argentino se despediu no mesmo dia, com horas de diferença. No último sábado, a torcida do Estudiantes viu a placa ser erguida, aos 31 do 2º tempo, anunciando a saída do camisa 11. Foi a senha para o início das homenagens ao armador de 39 anos que abandonava o futebol. Pela segunda vez. Ele havia se despedido em 2012 e voltou atrás. Agora jura ser para valer.

Juan Sebastian Verón.

O caminho dos dois se cruzou no futebol argentino, em partidas entre Internazionale e Lazio, no clube milanês, e na seleção argentina. Foram para a Europa com apenas um ano de diferença. Verón foi contratado pela Sampdoria em 1996. Jogaram juntos as Copas do Mundo de 1998 e 2002. La Brujita ainda foi chamado por Maradona para ir à África do Sul em 2010.

Zanetti comprometeu quase toda à carreira ao clube italiano em que acabou virando capitão e um dos maiores ídolos da história. Verón também passou pela Inter entre 2004 e 2006.  Mas marcou mais no Parma, Lazio e Manchester United. Também teve passagem discreta pelo Chelsea. Nunca escondeu o desejo de voltar ao Estudiantes. Agremiação de La Plata em que começou e onde o pai foi campeão da Libertadores e Mundial em 1968. Sonhava repetir o feito.

Quase conseguiu. Conquistou o torneio sul-americano em 2010 e esteve a 40 segundos de derrotar o Barcelona no Mundial de Clubes. Perdeu na prorrogação.

A dupla teve o melhor momento pela albiceleste no mesmo torneio: a Copa de 1998. Zanetti fez o gol de empate argentino contra a Inglaterra, nas oitavas de final. Verón foi, ao lado de Davids, o melhor do torneio. Contra a Holanda, nas quartas de final, teve atuação magistral em uma das maiores partidas da história da competição.

Verón protagonizou briga feia com Juan Pablo Sorín antes do Mundial da Alemanha de 2006. Além de discussão sobre um apartamento alugado pelo lateral-esquerdo que pertencia ao meia em Roma, o pano de fundo teria sido o lobby de Sorín para que Zanetti não fosse chamado por José Pekerman para a Copa. Algo que o acusado sempre negou. Por via das dúvidas, Pekerman não convocou Verón nem  Zanetti.

Tanto Internazionale quanto Estudiantes ainda fazem mais um jogo pelas ligas italiana e argentina, respectivamente. Mas sábado foi a despedida de Zanetti e Verón diante das torcidas com quem mais criaram laços. Trajetórias que se cruzaram em vários momentos e que estão unidas pela grandeza na história do futebol.

Mesma data que também teve o adeus, diante  dos torcedores do Newell’s Old Boys, de Gabriel Heinze. Zagueiro que Sir Alex Ferguson definiu, em sua autobiografia, como “um jogador com espírito de mercenário”. Melhor ficarmos apenas em Verón e Zanetti, então…

Gracias, viejos. O futebol agradece.