Luto eterno na Itália*

Por Alex Sabino

*Texto escrito por RAFAEL VALENTE, repórter da Folha

Neste domingo, 4 de maio,  na Itália, o Torino, clube que não sagra-se campeão nacional há 38 anos, relembra a data mais importante de sua centenária história.

E a data não tem relação com a fundação ou com alguma conquista da equipe grená.

Há 65 anos, o Torino perdeu seu mais brilhante time em um acidente aéreo.

O avião que conduzia a equipe de Lisboa a Turim, após amistoso com o Benfica, chocou-se com um muro da Basílica de Superga, na colina homônima, nos limites da cidade italiana.

Não houve sobreviventes. Foram 31 vítimas.

torino

 

Dezoito jogadores do então tetracampeão nacional, o técnico e mais dois membros da comissão morreram. Assim como três dirigentes, três jornalistas e quatro tripulantes.

A Itália parou por conta da tragédia. No funeral, no dia 6 de maio, 700 mil pessoas choraram a morte do time, base da seleção italiana.

Quando ocorreu o acidente faltavam quatro rodadas para o término do Campeonato Italiano. A federação declarou o clube campeão, mas a equipe resolveu disputar os últimos jogos.

O Torino entrou em campo com o time de juniores e derrotou Genoa (4-0), Palermo (3-0), Sampdoria (3-2) e Fiorentina (2-0), que também foram representados por seus juniores.

O clube grená foi pentacampeão nacional, mas não houve comemoração.

Na temporada seguinte, nem sequer costurou no uniforme o Scudetto, símbolo com as cores da Itália que desde 1925 era usado para representar o campeão.

E o Torino nunca se recuperou da tragédia.

Antes, havia se estabelecido como o primeiro a ter um estádio próprio, a constituir divisões de base, a ostentar um patrocinador na camisa – a Fiat, durante o campeonato regional de 1944/45 – e a realizar uma turnê pela América do Sul.

Depois, conquistou apenas um Scudetto (1975/76) e disputou a segunda divisão 12 vezes. O vice-campeonato nacional em 1976/77 e em 1984/85, o vice da Copa Uefa em 1991/92, além da Copa Itália em 1992/93, são as melhores lembranças dos últimos anos.

O time que morreu ficou eternizado como o Grande Torino por conta de seus feitos.

Além dos cinco títulos italianos consecutivos (recorde dividido com a Juventus), aquela equipe venceu 121 dos 172 jogos oficiais que disputou durante sua existência e marcou impressionantes 440 gols. Sofreu apenas 17 derrotas e empatou 34 vezes.

O camisa 10 era Valentino Mazzola, que é considerado até hoje um dos maiores jogadores italianos de todos os tempos. Havia ainda nomes como o do centroavante Guglielmo Gabetto, os pontas Menti e Ossola e o meio-campista Ezio Loik.

Muitos dos recordes ainda existentes na Série A foram registrados por este time.

Por exemplo: maior número de vitórias em uma mesma edição (29, em 1947/48 com 21 times na disputa); mais jogos sem perder em casa (88, de 1943 a 1949); maior número de gols feitos em uma mesma edição (125, em 1947/48); maior número de partidas sem sofrer gols (33, em 1947/48); maior goleada da Série A (10 x 0 no Alessandria, em 1947/48).

O Torino também era a base da Itália que disputaria a Copa do Mundo no Brasil, em 1950. De 1945 a 1949, teve sempre mais de cinco jogadores convocados para defender a Azzurra.

E até hoje detém um recorde.

Em 11 de maio de 1947, dez jogadores foram titulares na vitória da Itália por 3 a 2 sobre a Hungria. Só o goleiro Bacigalupo, então com 23 anos, ficou na reserva do juventino Lucidio Sentimenti, que tinha 28 e era considerado mais experiente.

Com tantas marcas positivas, aquele time também ficou eternizado como “Os Invencívéis”.

Ninguém esquece da formação titular: Bacigalupo; Ballarin, Maroso e Grezar; Rigamonti e Castigliano; Menti, Loik, Gabetto, Mazzola e Ossola.

Os “caduti di Superga” em 4 de maio de 1949 foram:

JOGADORES

Aldo Ballarin (zagueiro, 27 anos)
Danilo Martelli (meio-campista, 25)
Dino Ballarin (goleiro, 23)
Émile Bongiorni (atacante, 28)
Eusebio Castigliano (meio-campista, 28)
Ezio Loik (meia-atacante, 29)
Franco Ossola (atacante, 27)
Giuseppe Grezar (meio-campista, 30)
Guglielmo Gabetto (centroavante, 33)
Jiulius Schubert (meio-campista, 26)
Mario Rigamonti (meio-campista, 26)
Piero Operto (zagueiro, 22)
Romeo Menti (ponta-direita, 29)
Rubens Fadini (meio-campista, 21)
Ruggero Grava (centroavante, 27)
Valentino Mazzola (meia-atacate, 30)
Valerio Bacigalupo (goleiro, 25)
Virgilio Maroso (zagueiro, 23)

COMISSÃO TÉCNICA

Egri Erbstein (diretor técnico, 50)
Leslie Lievesley (técnico, 37)
Osvaldo Cortina (massagista, 52)

DIRIGENTES

Rinaldo Agnisetta (56 anos)
Ippolito Civalleri (66 anos)
Andrea Bonaiuti (35 anos)

JORNALISTAS

Renato Casalbore (Tuttosport, 58)
Renato Tosatti (Gazzetta del Popolo, 41)
Luigi Cavallero (La Stampa, 42)

TRIPULAÇÃO

Pier Luigi Meroni (piloto, 34)
Cesare Biancardi (copiloto, 35)
Antonio Pangrazi (operador de rádio, 42)
Celeste D’Inca (motorista, 43)

HOMENAGENS

Hoje, o clube e seus seguidores repetirão um ritual comum desde 1949.

Todos se deslocam à Basílica de Superga, onde uma missa é feita em homenagem aos “caduti di Superga”. Depois, vão para o lado de fora do templo, próximo do muro onde o avião se chocou, e o capitão atual da equipe lê os nomes dos jogadores mortos.

A honra neste ano será do polonês Kamil Glik. Antes da cerimônia, ele estará em campo para enfrentar o Chievo, em Verona, às 10h (de Brasília).

Ao final do jogo, ele e os demais companheiros de Torino vão viajar de avião até Torino. O presidente Urbano Cairo alugou um jatinho para assegurar que todos participem.

Na Basílica, há o Memorial Grande Torino, construído logo após o acidente. O local é usado pelos torcedores para prestar homenagens, independentemente do dia da tragédia.

Na cerimônia deste domingo ainda deve estar presente Sauro Tomà, 88, o único remanescente do Grande Torino. O ex-zagueiro escapou da tragédia porque estava tratando uma lesão no joelho e não pôde viajar para o amistoso com o Benfica, em 1949.

Apenas ele e o ex-goleiro Renato Gandolfi escaparam do acidente. Todos os anos os dois são homenageados e participam de eventos sobre o Grande Torino. Mas desde 2011 Tomà ficou sozinho –Gandolfi morreu em abril daquele ano.

É possível que os portugueses Artur Santos e José Bastos compareçam. Eles participaram do último jogo do Grande Torino: a derrota por 4 a 3 para o Benfica, em Lisboa.

A tragédia em 1949 repercutiu no mundo todo. A pedido da federação chilena, a Fifa decretou 4 de maio como o Dia Mundial do Futebol.

Na Argentina, o River Plate doou parte de sua arrecadação para ajudar as famílias dos jogadores mortos. Ainda em 1949 viajou a Itália e organizou alguns jogos para reverter a renda para os familiares.

No Brasil, Corinthians, Portuguesa, Palmeiras e São Paulo organizaram missas em suas sedes para homenagear o Torino. Um ano antes da tragédia o quarteto tinha enfrentado o clube italiano em jogos no Pacaembu.

O Corinthians chegou a realizar um amistoso em 1949, contra a Portuguesa, em que atuou com uniforme grená (o mesmo usado pelo Torino). Foi uma homenagem organizada pelo clube alvinegro. O gesto foi repetido em 2011 por ideia do departamento de marketing.

Hoje, durante o jogo contra o Chievo, será respeitado um minuto de silêncio em memória ao Grande Torino. E Glik usará uma faixa que simboliza o sentimento dos torinistas (e de muitos italianos) sobre o Grande Torino:

“Gli eroi sono sempre immortali agli occhi di chi in essi crede. E così i ragazzi crederanno che il Torino non è morto: è soltanto in transferta”.

“Os heróis são sempre imortais aos olhos de quem acredita neles. E assim as crianças irão acreditam que o Torino não morreu: está apenas fora de casa”.