“Por que você continua indo a essas boates de pederastas?”

Por Alex Sabino

Este texto foi publicamento escrito originalmente por mim, em agosto do ano passado (publicado aqui). Parece-me um momento adequado para postá-lo novamente.

—–

Justin Fashanu of Norwich City

 

Foi tão bonito que entrou na vinheta de abertura do Match of the Day, o programa esportivo mais tradicional e popular do Reino Unido. Justin Fashanu recebe na entrada da área, levanta a bola e, sem deixá-la cair, acerta sem-pulo de canhota. O chute encontra o canto esquerdo. O lance do Norwich, contra o Liverpool, em 1980, foi considerado pela BBC o mais belo gol da temporada.

Foi também o momento que catapultou o garoto de 19 anos para o estrelato. Esta é a história do primeiro jogador negro a custar 1 milhão de libras. Da revelação apontada como uma das maiores promessas do futebol britânico. Do primeiro boleiro profissional (de uma liga relevante) a se assumir como homossexual. Até hoje, apenas ele e Robbie Rogers, atualmente no Los Angeles Galaxy, da Major League Soccer, saíram do armário. O volante norte-americano chegou a pendurar as chuteiras por saber que não aguentaria o preconceito. Voltou. A trajetória do inglês não teve final feliz.

As vidas dos dois únicos atletas profissionais a se declararem gays diferem em quase tudo. Rogers falou sobre o assunto quando ainda estava em atividade, no século XXI e tem capacidade técnica limitada. Não é titular no Galaxy. Seu cartão de visitas, mesmo que involuntariamente, é a opção sexual. Ele também fez a “confissão” pela necessidade que sentiu de não viver mais se escondendo. Fashanu tinha muito talento. Embora todas as pessoas no meio do futebol soubessem sobre sua homossexualidade, ele a tornou pública apenas em 1990, quando já era ex-atleta. E por dinheiro. Vendeu a história para o tablóide sensacionalista “The Sun” por 100 mil libras (cerca de R$ 380 mil, em valores atuais).

Apesar de todo o histórico de machismo que existe no mundo da bola (menos nos Estados Unidos, onde o soccer é visto como coisa de “menininhas”), chega a ser surpreendente que, até hoje, apenas duas pessoas tenham aparecido para reconhecerem a homossexualidade. Isso entre os campeonatos de expressão no planeta. Principalmente porque, quem tem o mínimo de conhecimento dos bastidores desse esporte, sabe que os casos sobre o assunto não são raros.

A história de Justin Fashanu não é conto de fadas. Nada é perfeito. Ele estava longe de ser um santo. Vendeu matérias fabricadas para o The Sun. Alegou ter tido casos com deputados conservadores. Jurou ter vivido affair também com uma mulher, Jullie Goodyear, atriz da série Coronation Street, que ainda faz sucesso na Inglaterra. Os depoimentos foram negociados no espaço de anos, a partir da primeira, em que confessava ser gay. Inventar reportagens para tablóides havia se tornado uma fonte de renda para o antes promissor atacante, quando teve de se aposentar do futebol.

A sua vida teve várias rejeições. Aos quatro anos, foi entregue para adoção, junto com o irmão mais novo, John. Criados por família de classe média, eram os únicos negros na vizinhança ou na escola. Para começar a se enturmar, Justin dizia ser branco.

Aqui a história ganha um contorno comum a milhões de outras crianças. Chutar uma bola nas ruas se tornou maneira de auto-afirmação. O problema era que, apesar de talentoso e forte fisicamente, ele era tímido, não se impunha diante dos amigos. Ao mesmo tempo, quem o conheceu através da vida descreve Justin como rapaz de carisma, dono sorriso cativante, que passava a imagem de ser confiável e extremamente educado. Ao contrário de John, que faria carreira de muito mais sucesso no mundo da bola. Fez parte da equipe histórica do Wimbledon dos anos 80, campeã da Copa da Inglaterra em 1988. Elenco tão cheio de histórias inacreditáveis que ficou eternizado como The Crazy Gang.

Conseguiu vaga nas categorias de base do Norwich, até explodir com o golaço diante do Liverpool, em Anfield. Impulsivo, Brian Clough o identificou como o camisa 9 perfeito para o seu Nottingham Forest, em 1981. Aceitou pagar 1 milhão de libras. O técnico logo descobriu o que todos em Norwich já sabiam. O atacante era gay. Só não admitia publicamente.

Tradicionalista, intransigente, capaz de frases geniais, vencedor e um dos grandes conhecedores da mente dos boleiros em sua época, Clough viu logo em Justin Fashanu duas características que o desagradavam. Além do homossexualismo, mostrava enorme incapacidade de fazer gols. Foram apenas três em 32 jogos.

“Clough não gosta e não confia em mim”, se queixou a amigos.

Era verdade. Justin também assustava vários colegas de elenco em viagens. Tinha pesadelos atterradores, violentos… Dava socos, quebrava janelas, esmurrava paredes. Os gritos dos torcedores adversários também eram impiedosos. Estava lá um centroavante inepto para balançar a rede. Negro e homossexual. Naqueles primeiros anos da década de 80, era prato cheio para aquele tipo de público que vocês sabem muito bem qual é.

Em poucos meses, Clough perdeu a paciência. Mandou-o treinar afastado da equipe principal. “Se você quer comprar carne, vai ao açougue. Se quer pão, encontra na padaria. Então, por que continua indo a essas boates de pederastas?”, questionou o técnico, consciente de que em Nottingham, cidade pequena, era fácil saber onde os jogadores iam à noite.

Justin Fashanu virou fonte de vergonha para um dos maiores treinadores da história do futebol, segundo Duncan Hamilton, autor de Provided You Don’t Kiss Me, a melhor biografia já escrita sobre Clough. Ele havia insistido com a diretoria para que pagasse 1 milhão por ele. E acontecia isso tudo? Se o camisa 9 conseguisse produzir em campo, era possível (mas improvável) que olhasse para o outro lado quando ouvisse sobre as noitadas de Fashanu. Daquele jeito, seria impossível.

O interesse do Southampton acabou sendo benção para os dois. Foi por empréstimo. Teve de voltar ao Forest. Depois, passou pelo Notts County. Uma pancada no joelho na primeira partida de 1983 o colocou fora de combate. Contusão tão séria que não conseguiu mais ser o mesmo. Peregrinou por outras equipes até ser dispensado pelo Brighton, da Segunda Divisão, com o argumento de que “não tem mais condições de jogar profissionalmente”. Fez testes em outros cinco clubes, sempre reprovado nos exames médicos.

O relacionamento com o irmão John Fashanu era outro problema. Ficaram sete anos sem conversarem. “Justin sempre está em busca de atenção. Quando questionei o motivo para vender a história para os jornais e envolver outras pessoas, ele me dizia que isso o colocaria de volta nas manchetes”, revelou.

Por publicidade ou não, ele saiu do armário em 1990, aos 29 anos, quando já havia desistido de voltar ao esporte. Mas quando colocou nas matérias nomes de outras pessoas conhecidas e surgiu a deconfiança de que aquilo não era exatamente verdade, amigos passaram a deixar de retornar suas ligações. Aquilo foi baque considerável para ele. Abraçou outros interesses no futebol. Apareceu projeto de um conhecido para ensinar nos Estados Unidos. Era boa oportunidade. Na América, ninguém sabia quem ele era, teria a chance de construir a reputação. Já havia procurado empregos semelhantes na Nova Zelândia e Canadá.

Isso era 1998. Na comunidade relativamente pequena de Maryland, ganhou confiança dos adolescentes, até dos que não queriam saber de soccer. Sua casa era ponto de encontro, sempre havia festas, bebidas, cigarros de maconha. Em uma noite, Mike, Steve, Carol e DJ estavam por lá. Bebendo e fumando. Justin se sentiu atraído por DJ. A história tem versões controversas. O garoto afirma que acordou, no dia seguinte, com as calças abaixadas até os tornozelos e com o “professor” fazendo sexo oral nele. Acompanhado da mãe, o garoto, menor de idade, foi à polícia. Exames revelaram que havia uma fissura no reto do acusador. Foi encontrado sangue. Pêlos.

A polícia foi ao encontro de Fashanu. O detetive encarregado pelo caso achou o então professor de soccer tranquilo. Disse ter havido algum mal entendido.

“O senhor está disposto a passar pelo teste do polígrafo?”

“Sim, sem problemas?”

“O senhor é gay?”

“Não, não sou”.

Ao voltar para a delegacia, o detetive fez busca com o nome do acusado na internet. Percebeu que ele havia mentido sobre a opção sexual. Três dias depois, conseguiu mandado de prisão preventiva. Quando chegou à casa do ex-jogador, descobriu que este havia retornado para o Reino Unido.

Poucos dias mais tarde, o corpo de Justin Fashanu foi encontrado na garagem de sua casa, em Londres. Ele havia se enforcado. Estava com 37 anos.

Deixou nota explicando ter fugido por achar que, se ficasse nos Estados Unidos, não teria um julgamento justo. Disse ter tido uma relação consensual com o menor de idade e que este o havia chantageado. Antes de decidir tirar a própria vida, telefonou para Eric Hall, o agente que havia intermediado a  venda das histórias para o The Sun. Deixou recado afirmando ter mais uma matéria para negociar com o jornal. Presume-se que queria faturar sobre o caso, dando a sua versão dos acontecimentos. Tentou entrar em contato com o irmão John.

“Um dia antes de cometer o suicídio, ele me telefonou. Fiquei dizendo ‘alô. Alô!’, mas ninguém falava nada. Imaginei que poderia ser Justin, mas não tinha certeza. Pensei: ‘ah, deve ser ele de novo…’. se recorda o hoje apresentador de TV, afirmando arrependimento por não ter tentando entrar em contato com o familiar mais velho.

Previsivelmente, a história de Justin fez com que emissoras de televisão e jornais produzissem material especial sobre a sua carreira. Ativistas gays fizeram memorial em Londres, afirmando que o ex-jogador foi vítima de preconceito e homofobia. No ano passado, John Fashanu surpreendeu ao dizer não acreditar que o irmão fosse homossexual.

“Não creio que ele era gay. Era tudo showbusiness. Se você tivesse um irmão que viesse até você e dissesse ‘Ei, eu sou gay’ , você diria: ‘sem problemas’. Mas se você tivesse um irmão que chegasse e dissesse: ‘Eu sou um astronauta’… Isso é um pouco estúpido. Eu não acredito que ele era gay e para dizer a verdade, quem dava a mínima importância para isso? E daí se ele fosse gay? Mas não vá vender e inventar histórias por dinheiro, pelo amor de Deus”, reclamou, em entrevista à Talksport, emissora de rádio.

A história e possível “legado” de Justin Fashanu ainda é discutido. Já foram publicados livros, feitos programas de TV, debates em rádios… Ele chama a atenção não apenas por ter sido o primeiro. Também por ser quase o único.