O que deu errado, Moyes?

Por Alex Sabino

Moyes

 

Em fevereiro de 2013, David Moyes estava preocupado com a renovação de contrato com o Everton.

“Eu acho que você precisa ter calma. Pode ser que apareça algum clube grande no seu caminho”.

A dica foi de Sir Alex Ferguson. Ele já havia decidido abandonar o futebol e definido seu sucessor. Era segredo até então.

Quatorze meses após aquela conversa, David Moyes está desempregado. E o Manchester United procura um técnico.

Não que a imprensa inglesa tenha tanto direito assim de reclamar hoje em dia da escolha de Sir Alex. Quando anunciou que estava deixando o clube após quase 27 anos e revelou o nome do sucessor, a decisão foi recebida com aprovação quase unânime. Era sinal que o Manchester United pensava a longo prazo. Em ter um treinador no mesmo molde de Ferguson, capaz de ficar muitos anos no comando. Não cedeu à tentação de ter alguém explosivo como José Mourinho.

O fato de  Moyes ter passado 11 anos no Everton sem ganhar um título foi esquecido. Os argumentos a seu favor eram válidos. Diante das restrições orçamentárias que enfrentou, fez milagres. Na única temporada em que teve dinheiro para gastar em contratações (2004, após a venda de Rooney), levou o clube à Champions League.

As críticas atuais, de que ele não manteve o estafe da era Ferguson e isso atrapalhou, são meias verdades. O outro lado disso, é a meia mentira.

Ele ofereceu o cargo de assistente-técnico a Rene Maulesteen. O holandês não aceitou. A contratação de Phil Neville foi tentativa de ligar o passado ao presente. A chegada de Chris Wood fez David De Gea ser o melhor goleiro da Premier League.

Apesar da campanha ruim, em nenhum momento a torcida em Old Trafford se voltou contra o técnico. Diante do Aston Villa, quando um avião sobrevoou o estádio com a mensagem “Moyes out”, foi maciçamente vaiado.

Conseguiu o que parecia impossível. Fez Wayne Rooney assinar renovação de contrato quando parecia certo que ele forçaria uma venda para o Chelsea. José Mourinho contava com isso.

O que deu errado, então?

David Moyes se deixou impressionar pelo tamanho do trabalho que tinha pela frente. Faltou-lhe personalidade, carisma. Justamente o que sobrava a Alex Ferguson. Embora não tenha sido a razão principal para o fracasso, pesou.

Jogadores deixaram vazar para a imprensa que as sessões de treinos do novo regime eram exaustivas, repetitivas e enfadonhas. Ao contrário da ênfase ao toque de bola e a criação de jogadas ofensivas usadas por Sir Alex, o novo técnico enfatizava o físico e a marcação.

Moyes é trabalhador. Analisa exaustivamente os adversários. Quando mais desafiado, nos jogos contra o Bayern de Munique, foi bem. O Manchester United poderia ter eliminado os alemães.

O problema era nas partidas que os Diabos Vermelhos tinham de tomar a iniciativa. No Campeonato Inglês, isso significa sempre. A insistência nas jogadas de linha de fundo e cruzamentos, nunca deu resultados.

Ele alienou vários integrantes do elenco com treinamentos e táticas defensivas. A não ser pelos três últimos confrontos na Champions League, alguns deles estavam desinteressados. Moyes não ajudou em nada ao quebrar uma das regras sagradas dos 26 anos de Ferguson no comando: você jamais fala mal dos seus jogadores em público. A declaração de que a equipe mostrava fraqueza mental, após levar empate do Fulham, nos acréscimos, irritou. A relação com Ryan Giggs, tudo indica, chegou ao ponto de ruptura. O técnico o ignorava e quase nunca o colocava para jogar. Pouco importa que, quando isso acontecesse, o meia de 40 anos mostrasse merecer mais.

Foi apenas uma das frases desastradas dele. Surpreendeu ao garantir, antes do clássico contra o Liverpool, em Old Trafford, que o rival era favorito. Após levar de 3 a 0 do Manchester City, em casa, afirmou que o Manchester United tinha de aspirar atingir o nível do adversário. As entrevistas pós-jogo, quando insistia que o time havia jogado bem, apesar dos resultados, fez o Manchester Evening News (o principal jornal da região) criar “gerador automático de desculpas de David Moyes”.

O símbolo dos dez meses de Moyes no United foi Fellaini. O belga custou absurdos 27 milhões de libras e não convenceu em nenhuma das posições que foi escalado. A insistência em contratar também Leighton Baines, por mais que a equipe precisasse de um lateral-esquerdo, foi prova de que o treinador não buscou se adaptar ao Manchester United. Em vez disso, tentou mudar o clube que era muito maior do que ele.

No fundo, a queda de David Moyes teve apenas um motivo: dinheiro. Fez o Manchester United ficar fora da Champions League pela primeira vez desde 1996. Provavelmente, a equipe não estará em nenhum torneio europeu, algo que não acontece desde 1982. Mais do que isso, o desempenho em campo estava desvalorizando os bonds lançados pela família Glazer na bolsa de Nova York. E a próxima janela de transferências será chave.

A questão fatal foi: o clube deveria dar 150 milhões de libras nas mãos de um técnico que não havia conquistado a confiança dos diretores?

Certa ou errada, a resposta dos Glazers foi não. David Moyes estava longe de ser o único culpado. Mas foi o bode expiatório.