“Alan, eles estão morrendo”

Por Alex Sabino

justice for the 96

Alan Hansen foi três vezes campeão europeu pelo Liverpool. Também  ganhou o título nacional oito vezes e faturou duas Copas da Inglaterra. No total, foram 21 conquistas em 14 anos no clube.

Mas a imagem que ele mais guarda na memória é a de um torcedor correndo em sua direção no gramado de Hillsborough, em 15 de abril de 1989, e gritando:

“Alan, faça alguma coisa. Eles estão morrendo”.

O zagueiro estava impotente. Com a bola rolando, era capaz de controlar a grande área. Antecipar-se a jogadas. Dar pontapés, se preciso.

“Eu não poderia fazer nada, a não ser observar. Nunca vou me esquecer daquilo”, confessa.

Nesta terça-feira, 15 de abril de 2014, 25 anos depois, o hoje comentarista da BBC estará no estádio de Anfield, ao lado de ex-companheiros de time, de Kenny Dalglish e das famílias das 96 vítimas fatais do que ficou na história como a tragédia de Hillsborough.

Os fatos são bem conhecidos. Por excesso de lotação na Leppings Lane End, arquibancada inferior atrás de um dos gols da casa do Sheffield Wednesday, quase 100 torcedores morreram sufocados.

A polícia demorou para entender a gravidade da situação. Duas décadas e meia mais tarde, fica claro que oficiais e políticos da região não mediram esforços para mudar depoimentos e encobrir fatos para tentar provar que as mortes foram culpa das próprias vítimas.

A desgraça inspirou o Taylor Report, que praticamente acabou com o hooliganismo no Reino Unido e tornou os estádios mais seguros.

Justice for the 96 (Justiça para os 96) virou um grito de guerra.

“Eu não consigo explicar o que você sente. Não sabia na hora, não sei hoje. Eu perdi duas filhas que morreram porque foram a um estádio de futebol torcerem pelo time que amavam. Elas viveram a vida inteira juntas, morreram juntas e foram enterradas juntas”, diz Trevor Hicks, diretor do Grupo de Apoio às Famílias de Hillsborough, entidade que luta pela revisão judicial do caso.

Hicks estará em Anfield ao lado de Kenny Dalglish, maior jogador da história do Liverpool e técnico na época. Em 1989, nos dias após a tragédia, a vida do escocês foi ir de um funeral a outro. Compareceu a tantos quanto pôde. Confessa que manteve por anos, debaixo de sua cama, as cartas que recebeu de familiares.

John Sheridan, atacante irlandês, também vai comparecer. Ele ficou tão traumatizado pelo que viu naquela semifinal da FA Cup, interrompida aos sete minutos do primeiro tempo, que considerou seriamente a possibilidade de largar o futebol.

Estará próximo a Steven Gerrard, o atual capitão, o astro que voltou atrás na transferência para o Chelsea, onde fatalmente seria campeão da liga, para permanecer no clube onde foi revelado, apesar de ter crescido como torcedor do Everton. Seu primo, Jon-Paul Gilhooley, 10, foi a vítima fatal mais jovem em Hillsborough.

Eles estarão juntos quando, em frente ao Kop, a arquibancada mais famosa e barulhenta de Anfield, Brendan Rodgers ler trechos do salmo 23 da Bíblia.

“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará… Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da Justiça, por amor do Seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo…”

Os familiares dos mortos pediram que Rodgers, o técnico que está tão perto de tirar o Liverpool da fila de 24 anos sem títulos ingleses,  lesse a mensagem. Justamente ele que, em vez de rejeitar o fantasma do passado vencedor, como todos os outros fizeram antes dele, o abraçou.

Já na semana passada, dezenas de cachecóis de diferentes clubes foram colocados por anônimos no Shankly Gates, portões em frente ao estádio. Até mesmo de arquirrivais como Manchester United e Everton. O nome é homenagem a Bill Shankly, o maior treinador da história do Liverpool. Justamente quem cunhou a frase que “futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante do que isso”.

É o melhor esporte de todos. Mas não é mais importante do que a vida.

Justiça para os 96.