O fantasma de 14 de fevereiro de 2012

Por Alex Sabino

Rangers

Pode parecer incrível, mas Gordon Dinnie não sabe ao certo onde estava em 14 de fevereiro de 2012. Para os torcedores do Glasgow Rangers, esta data é como a morte de Kennedy para milhões de outras. Ou, tentando não ser muito leviano, o atentado às Torres Gêmeas. O mundo nunca mais foi o mesmo.

“Estranho, mas eu não me lembro bem. Aquele foi um dia negro. É como se todos nós tivéssemos entrado em uma espécie de torpor”, diz o hoje chairman do Rangers Supporters Trust, associação que reúne os torcedores do time da capital.

Mais surpreendente ainda é eu me lembrar perfeitamente onde e o que estava fazendo quando estourou a notícia de que o Rangers estava entrando em “administração” – uma espécie de concordata – e teria dez pontos deduzidos na tabela de classificação do Campeonato Escocês.

Não que eu tenha uma memória tão fantástica assim. É que estava em Londres. Bebendo em um pub. Difícil você deixar escapar da memória quando está fazendo uma das melhores coisas do mundo, em um dos melhores lugares do mundo na melhor cidade do mundo.

O problema não era a concordata. Era o que viria depois. “Nós sabíamos que a situação era difícil. Só não tínhamos muita consciência do quanto”, completa Dinnie para a Folha.

O buraco era tão fundo que o Glasgow Rangers foi liquidado. Deixou de existir oficialmente. Não tinha dinheiro para pagar os 134 milhões de libras esterlinas (R$ 510 milhões, em valores atuais) de dívida e os 49 milhões de libras (R$ 186 milhões) de multa do fisco britânico.

Foi criada uma nova empresa para administrar os ativos que sobraram. Meses depois, esta foi rebatizada como Rangers Football Club Ltd, respondendo pelo que sobrou do clube de 142 anos. Quando o Glasgow Rangers foi fundado por um grupo de quatro amigos protestantes, em 1872, o Brasil ainda era uma monarquia. Charles Miller nasceria apenas m 1874.

É toda essa história que o time coloca em campo neste sábado, em casa, contra o Dundee United, pela semifinal da Copa da Escócia. É o jogo mais importante desde o fatídico 14 de fevereiro de 2012. Pode significar, de verdade, “o retorno” da agremiação, que na próxima temporada vai disputar a Segunda Divisão. Quando o velho foi liquidado e o novo Rangers criado, teve de começar do zero dentro de campo. Foi colocado no quarto e último patamar do futebol local.

“Ganhar em campo é bom, mas nossa prioridade é outra. Os torcedores querem ter voz ativa na tomada de decisões”, afirma Dinnie. Estão arrecadando dinheiro para comprar ações do clube. Por enquanto, estão em apenas 0,86%. Sonham chegar aos 5%, quando teriam direito a participar diretamente da administração.

Apesar de jogar em casa, o Rangers não é favorito. Primeiro porque, é claro, está na  Terceirona e enfrenta rival que disputa a elite. O maior temor é que a equipe não está jogando bem sob o comando do ídolo Ally McCoist, ex-atacante e intergrante da seleção escocesa na Copa de 1990. Ele se manteve no cargo em 2012 para tentar tirar o time do atoleiro.

Na semana passada, perdeu a chance de ouro de conquistar o primeiro título da era pós-liquidação. Foi derrotado, na prorrogação, pelo pequeno Raith Rovers na decisão da Ramsdens Cup, torneio disputado apenas pelas equipes que não estão na divisão principal.

A Copa da Escócia é outra conversa. É torneio tradicional, dá a chance de jogar a Liga Europa. Também pode sinalizar uma luz no fim do túnel para torcida, diretores, jogadores e comissão técnica.

“É um momento-chave neste processo de retorno do Rangers”, reconhece McCoist, que não tem agradado aos torcedores. Desagradou especialmente ao ser fotografado cantando em um karaokê após a derrota na final diante do Rovers.

A única certeza sobre a semifinal é que o Ibrox estará lotado. Como não? No primeiro jogo da equipe na Quarta Divisão, em 2013, o público foi de 49.118 pessoas.