Malvinas, futebol e Omar De Felippe

Por Alex Sabino

Omar De Felippe é aplaudido em quase todos os estádios da Argentina. Mesmo que seja técnico do time visitante, não é hostilizado. Na última terça-feira, em sua conta no Twitter, escreveu a mensagem:

“Respeito e admiração a meus ex-companheiros e combatentes que deram tudo em defesa do nosso território. Não renunciemos à MEMÓRIA.”

Era um feriado de nome comprido no país: Dia do Veterano e dos Caídos na Guerra das Malvinas.

O desprendimento do hoje treinador para falar sobre o assunto levou tempo. Durante sete anos, ele se recusou a comentar publicamente a condição de ex-combatente do conflito contra os britânicos, que durou apenas dois meses mas marcou profundamente a alma argentina. O governo militar do general Leopoldo Fortunato Galtieri decidiu invadir o conjunto de ilhas administradas pelos britânicos, em abril de 1982.

Era forma de desviar a atenção dos problemas econômicos na nação e reforçar a auto-estima do povo com uma possível vitória.

A aposta de Galtieri sempre foi que os ingleses não se dariam ao trabalho de tentar recuperar as ilhotas. Quase deu certo. Vários assessores de Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica, queriam deixar o assunto para lá. Quase sozinha, ela resolveu reagir. Em dois meses, o Reino Unido ganhou a guerra e retomou os territórios.

O custo foi de 649 mortos no lado sul-americano e cicatrizes profundas. Que se refletem também no futebol. Buenos Aires e Mar del Plata têm estádios chamados Islas Malvinas. Argentinos carregam uma queda por anjos caídos e dramas que não terminam bem. Omar De Felippe foi personagem de um desses episódios, que ainda hoje ocupa o imaginário popular com o slogan “As Malvinas são argentinas!”

“Vários garotos que estavam nas categorias de base de todos os clubes tiveram de largar tudo para servir ao exército. Não foi surpresa. Já esperávamos. Quando começaram a relutar em dar a dispensa do serviço militar para todo mundo, imaginamos o que estava por vir”,  confessa o então jogador de 20 anos do Huracán.

Até a invasão às Malvinas, o país respirava a Copa do Mundo a ser disputada na Espanha. Seria o primeiro Mundial de Diego Armando Maradona. A Argentina viajaria para defender o título. Enquanto isso, a jornada de Omar De Felippe incluía caminhadas diárias superiores a oito quilômteros, golpes de sorte (foi ferido e esteve perto da morte três vezes) e fome. Muita fome.

“Tenho a lembrança de várias vezes em que não tínhamos nada ou muito pouco. Algum de nós era designado para sair e matar um gato ou cachorro para que tivéssemos o que comer”.

Pouco mais de um mês depois, após a rendição da junta militar do general Galdieri, De Felippe foi um dos beneficiários do esvaziamento dos estoques de comida do exército. Os mantimentos ficaram guardados porque, com o planejamento típico de autoridades sul-americanas, acreditava-se que o conflito duraria muito mais. O hoje técnico se sentou na calçada, abriu as latas com a ponta da baioneta e comeu tudo o que apareceu. Sem garfo nem faca. Com as mãos.

Os dias seguintes ao fim do conflito foram de humilhação e medo. Eles não tinham culpa. Eram garotos que passaram frio, não tinham armas modernas o bastante e não conheciam estratégia militar. Mas eram derrotados em um país em que com orgulho nacional não se brinca. Existia o temor de como seriam recebidos. “As donas de casa nos imploravam por souvenires da guerra. Meias, camisetas, qualquer coisa. No final de tudo, voltamos como heróis”, constata.

Como sempre acontece após guerras, muitos desses heróis não resistiram ao retornarem à vida civil. O futebol salvou Omar De Felippe. Em casa, ele não falava sobre o que passou nas Malvinas. Nunca falou. “Minha mãe me disse que não queria saber de nenhuma história. Jamais me perguntou nada.”

Assim que voltou ao Huracán, o clube lhe ofereceu um contrato profissional. Os colegas mais veteranos o receberam de braços abertos. Pediam para que ele contasse como foi a guerra. Ao falar, ele exorcizava os próprios demônios. “Imagino que muita gente não teve a chance de desabafar. Fica muito fácil ficar deprimido ou meter uma bala na cabeça. Eu tive sorte.”

Quando aceitou se abrir publicamente sobre o assunto, sempre se recusou a fazer a comum comparação entre o jogo de futebol e uma guerra. Porque, claro, Omar De Felippe SABE o que é uma guerra. Não aceita nem fazer brincadeiras desse tipo atualmente, quando tenta recolocar o Independiente na elite do futebol argentino no meio da maior crise de um dos maiores clubes do país. Quando assumiu o cargo no ano passado, a equipe corria o risco de cair para a B Metropolitana, a terceira divisão. Hoje está em terceiro na B Nacional. Se continuar nesta colocação, volta à Primeira.

“Eu não gosto mesmo de comparar futebol com a guerra. Futebol dura 90 minutos. Na guerra, eles mandam o seu filho para lutar por um pedaço de terra que ele nunca ouviu falar. E pode não voltar nunca mais.”

As Malvinas representam ponto de tensão na sociedade argentina. Cada vez que o país vai mal (como atualmente, no governo de Cristina Kirchner) o assunto volta à tona, como se o trauma de 32 anos atrás não fosse o bastante. Mesmo nos estádios de futebol locais, as manifestações e faixas podem ser encontradas. “Se as Malvinas forem retomadas, que sejam pelas vias diplomáticas. Sem derramamento de sangue. Ninguém merece viver por isso”, finaliza o técnico e ex-combatente de guerra.