O maior clássico e o fim de uma era

Por Alex Sabino

Juan Román Riquelme é o maior jogador da história do Boca Juniors.

Carlos Bianchi é o técnico mais vitorioso que esse clube já teve.

Os dois podem disputar pela última vez um Superclássico, em La Bombonera, neste domingo. O River Plate vai a La Boca, às 18h15 (de Brasília) fazer a partida que, como todo grande confronto do futebol mundial, é um campeonato encalacrado em si mesmo.

Tecnicamente são duas equipes indigentes. O Boca Juniors não aceita se desapegar do passado vencedor. Por causa disso, não ganha nada no presente. O River Plate é equipe que ainda não se recuperou do rebaixamento em 2011. Conta com jogadores que possuem moral não correspondente ao talento que mostram dentro de campo. Como o colombiano Téo Gutierrez, por exemplo.

Riquelme e Bianchi são os dois grandes símbolos dos anos em que os Bosteros foram campeões de tudo.  Em duas passagens pelo clube (1998-2001 e 2003-2004), o técnico ganhou quatro títulos argentinos, três Libertadores e dois Mundiais. O camisa 10 fez parte das conquistas nacionais em 1998, 1999 e 2001, das Libertadores de 2000 e 2001 e do Mundial de 2000. Depois, sem a companhia do técnico apelidado de “Virrey”, faturou os Aperturas de 2008 e 2011,  Libertadores de 2007, Recopa de 2008 e a Copa Argentina de 2012.

Era o casamento perfeito. Bianchi sempre foi o pragmático. O comandante que sabia fazer seu time jogar cirurgicamente, até melhor fora de casa do que dentro. Dono de uma sorte quase sobrenatural em disputas de pênaltis (foi campeão pelo Vélez em 1994 antes de vencer as Libertadores de 2000 e 2011 desta forma pelo Boca. Neste último ano, derrotou o Palmeiras na semifinal pelo mesmo sistema).

Riquelme era a fantasia. Um dos maiores camisas 10 da história do futebol sul-americano. O armador por excelência. Genial. Imprevisível. É justo dizer que ele ganhou a Libertadores de 2007 praticamente sozinho.

Román foi o jogador que deixou Argel no chão, depois enfiou a bola por entre as pernas do zagueiro para, em seguida, o driblar novamente. Tudo isso em espaço de sete segundos.  Aconteceu na semifinal de 2001, no Palestra Itália, contra o Palmeiras. Partida que o zagueiro Jorge Bermúdez diz ter sido a maior da carreira do meia (veja a compilação abaixo. A sequência contra Argel começa aos 6’37”).

É também o craque capaz de dribles como esse abaixo diante do River Plate, contra quem jamais perdeu em La Bombonera.

Riquelme é de tal forma adorado pela torcida e ocupa lugar tão glorioso na história do Boca que todas as partes se recusam a acreditar que a magia acabou. Ele ainda pode ser mortal em bolas paradas e, especialmente no primeiro tempo, é capaz de momentos de brilho. Mas não consegue nem cortar as unhas do gigante que um dia foi.

Seu contrato com o Boca Juniors termina em junho. “Ainda não sabemos o que vai acontecer. Vamos conversar com ele e saber o que pensa”, disse o presidente Daniel Angelici.

Ele  hoje é parte do problema de uma equipe que já apresentava, mesmo em 2012, quando conseguiu chegar à final da Libertadores sob o comando de Julio Cesar Falcioni, um futebol medíocre.  No vestiário, nunca foi exatamente um agregador. Mas decidia em campo. Quando esta última parte parou de acontecer, a primeira ficou pior.

O camisa 10 virou especialista em fazer panelas. Para os amigos, tudo. Para os rivais de elenco, nada. Às vezes, nem um passe. Para utilizar expressão típica do futebol argentino, por causa em grande parte de Riquelme, o Boca Juniors virou um cabaré. Culminando com Ledesma (um dos integrantes da Irmandade Riquelmista) dando entrevistas para deixar muito claro que o goleiro Orión andava vazando informações internas para jornais por SMS. Os dois saíram no braço no vestiário há poucas semanas. Román convocou “coletiva” de imprensa  que durou poucos minutos.

Só ele discursou para os microfones. Disse que até o domingo seguinte o jornalista tinha de se apresentar na concentração da equipe para mostrar quem estava enviando as mensagens. Se isso não acontecesse, os jogadores entrariam em greve de silêncio.

Nenhum repórter foi até lá. Após o jogo que veio a seguir, diante do Racing, apenas um integrante do grupo quebrou o acordo de não falar: o próprio Riquelme.

Um dos maiores nomes que o futebol sul-americano produziu virou aquele personagem do filme de Chaplin: quando estava bêbado, era amigão de Carlitos. Quando sóbrio, o desprezava. A imagem pública de Riquelme é esta. Só que sem a bebida.

Mesmo assim, a ilusão persiste. Acredita-se que, de alguma forma e milagrosamente, o camisa 10 vai fazer um time que não passa de razoável (com otimismo) reviver as glórias dos tempos de Córdoba, Bermudez, Ibarra, Serna, Delgado, Guillermo Schelotto e Palermo. Este último, maior artilheiro da história do clube e ex-grande amigo de Riquelme. Os dois brigaram de tal forma que Martín sequer convidou o colega para seu jogo de despedida.

Todas as vezes que as coisas não iam bem dentro de campo, o nome de Carlos Bianchi voltava à mídia. O Virrey se afastou uma vez para cuidar da saúde da filha, Giulia, que tinha câncer. Ao deixar o Atlético de Madrid, em 2006, ficou sete anos longe do futebol, até aceitar retornar a La Bombonera, onde é venerado.

O amor é tamanho que qualquer técnico com os resultados mostrados por ele desde o início de 2013 já teria sido demitido sumariamente e se esgueirado pelas vielas do Caminito para não ser visto. Entre as derrotas, a equipe sofreu uma humilhação histórica ao levar de 6 a  1 do San Martín.

A melhor posição obtida pelo Boca na volta de Bianchi foi o 7º no Torneio Inicial, no segundo semestre do ano passado. Chega ao Superclássico em 12º, mas a apenas seis pontos do líder Colón. Uma diferença possível de ser superada, ainda mais no nível atual do futebol argentino.

Os fãs de Bianchi se recusam a ver que, depois de mais de um ano, ele não consegue dar um padrão de jogo para o time, que não adquire contratações de peso por problemas financeiros. Apostou na volta de Fernando Gago. Até agora, um fracasso monumental. Toma medidas que deixa a todos estarrecidos, como recusar a oferta para contratar Ever Banega, que acabou no Newell’s.

Mas o mais impressionante é que o Virrey parece ter perdido o toque mágico capaz de fazer os atletas acreditarem cegamente no que ele diz. O vestiário continua tão dividido quanto antes. Talvez até esteja pior em relação aos tempos de Falcioni. A marca do Boca de Bianchi, entre 2000 e 2004, era conseguir, de alguma forma, o resultado que precisava, aquele gol salvador nos minutos finais. A imagem do Boca de Bianchi 2013-2014 é a sonolência. Dentro de campo e para quem vê.

O contrato do técnico termina apenas em 2016, mas está estipulado que em junho, diretoria e treinador devem se sentar para revisar os termos. Para assinar contrato, Bianchi recebeu US$ 2 milhões. O salário é de US$ 50 mil. Nada exagerado no mundo do futebol. Na Argentina atual, é valor considerável.

Angelici já sinalizou que deseja a continuidade do treinador, embora tenha sido obrigado a passar pela humilhante situação de ter de vir a público dizer que não tem medo do Virrey. O que apenas sinaliza que se borra de paúra.

Pedindo perdão aos fãs de Barcelona e Real Madrid, Boca e River é o maior clássico do futebol mundial. Não há nada igual. E, quem sabe, o confronto de hoje pode sinalizar o fim de uma era que começou gloriosa, mas tem entrado em decadência nos últimos anos.