Dividindo famílias

Por Rafael Reis

Os holandeses Frank e Ronald de Boer, os dinamarqueses Michael e Brian Laudrup, os ingleses Gary e Phil Neville, os marfinenses Kolo e Yaya Touré. A história do futebol está cheia de irmãos que jogaram juntos por suas seleções.

Mas o crescimento dos fluxos migratórios entre os países e a globalização, também no futebol, estão mudando esse cenário.

Irmãos não precisam mais estar do mesmo lado do campo em confrontos entre países. Eles podem ser adversários.

Pela segunda Copa consecutiva, a família Boateng protagonizará um desses duelos entre irmãos.

E um duelo explosivo, diga-se de passagem, já que Jérôme e Kevin-Prince vivem uma relação de altos e baixos: já trocaram farpas públicas, mas costumam viajar de férias juntos.

Ambos nasceram em Berlim e são filhos do ex-garçom e modelo ganense Prince Boateng com mulheres alemãs diferentes. Enquanto o primeiro, zagueiro do Bayern de Munique, optou por defender a seleção da sua família materna, o segundo escolheu jogar pelo país dos seus antepassados paternos.

A rivalidade entre os irmãos explodiu antes da Copa de 2010. Kevin-Prince provocou a lesão que tirou o ídolo alemão Ballack do Mundial. Jerôme não saiu em defesa do mano. Pelo contrário, o criticou.

“Kevin me disse: ‘cada um tem sua família, você tem a sua, e eu, a minha’. Isso é demais, não quero ter contato com ele”, chegou a afirmar o zagueiro alemão, na época.

Pelos menos outros dois jogadores da Copa têm irmãos que defendem outras seleções. Mas nenhum deles travará duelo familiar no Brasil.

Paul, volante revelação da Juventus, é o único dos irmãos Pogba nascido na França e com futebol suficiente para defender os Bleus. Os gêmeos Florentin (Saint-Étienne) e Mathias (Crewe Alexandra) vieram ao mundo quando a família ainda morava em Guiné, conseguiram cidadania europeia, mas tiveram de se contentar com a seleção africana.

Já os volantes Saphir (Inter de Milão) e Nabil Taider (Lokomotiv Sofia) são o reflexo do mundo globalizado. Os irmãos tinham três opções de cidadania no futebol. Poderiam jogar pela França, país onde nasceram, Argélia, terra da mãe, ou Tunísia, nação do pai.

O primeiro escolheu se juntar ao enorme grupo de franco-argelinos da seleção da Argélia e é nome quase certo na Copa do Mundo. O segundo, tunisiano por opção, só vai poder torcer pelo irmão.

“Nunca joguei contra ele, mas espero que aconteça em pouco tempo. Será bom para nós dois”, disse Saphir, à Folha.

 

O zagueiro alemão Jérôme Boateng (esq.), que irá enfrentar seu irmão, jogador de Gana, na Copa do Mundo
O zagueiro alemão Jérôme Boateng (esq.), que irá enfrentar seu irmão, jogador de Gana, na Copa do Mundo