Um barra chamado Bebote

Por Alex Sabino

A polícia brasileira esteve no início do ano em Buenos Aires. Olhou, fotografou e filmou o comportamento dos barras bravas argentinos. Já sabe que um pequeno grupo deles é esperado em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte no final de março. São integrantes da Hinchadas Unidas Argentinas (HUA), ONG que reúne organizadas do país.

Na visita, os policiais foram informados que eles se reportam a um chefe chamado “Bebote”.

“Sinto muito, Pablo Álvarez não fala com a imprensa”, diz a advogada Débora Hambo.

Pablo Álvarez e Bebote são a mesma pessoa. O nome representa o mais desafiador, conhecido e perigoso barra brava da atualidade no futebol argentino.

“Vou me candidatar [à presidência do Independiente]”, disse ele, nesta semana, em declaração que teve ampla repercussão na imprensa local.

Bebote esteve na África do Sul no último Mundial. Era tesoureiro da HUA. Foi um dos que tentou driblar o sistema de segurança africano, que esperava os torcedores violentos. Em vez de viajar direto de Buenos Aires, pegou um voo que saiu de Angola. Foi detido e deportado do mesmo jeito.

Cotado para ser a principal referência dos barras bravas durante a Copa no Brasil, Álvarez não tem o menor receio de ironizar os poderosos, ameaçar publicamente e ser midiático. Os chefes das organizadas das outras equipes fogem das câmeras de TV como o diabo da cruz. Bebote, nem tanto.

Ao chegar em Avellaneda, sede do Independiente, nesta semana, boa parte da imprensa o esperava, microfones em punho. Ciente do que fazia, ele ficou o tempo inteiro com um capacete de motoqueiro. Não mostrou o rosto, mesmo este sendo conhecido por qualquer fã de futebol. Carregava mala com 200 mil pesos (cerca de R$ 56,5 mil). O dinheiro era para filiar 500 torcedores. Futuros eleitores no pleito do clube. Gente que pode elegê-lo para o comando de uma das cinco agremiações consideradas grandes no país.

“As pessoas o identificam como barra brava. Mas ele não é violento. Não há nenhuma condenação contra Álvarez há dez anos. É um erro que seja visto assim”, completa Hambo, advogada de Bebote e da HUA.

Se conseguir ingressos para os jogos da Copa, ele pode ter um privilégio no Brasil que não possui na Argentina: entrar em um estádio de futebol. Apesar das afirmações de sua advogada, está na lista dos torcedores violentos proibidos de frequentar partidas. É o chamado “direito de admissão”. Mas é algo que vale no futebol local. Não internacionalmente.

“É totalmente ilegal. O direito de admissão não faz parte da constituição argentina. E não me preocupa porque é algo que vai passar. Eu vou voltar (aos estádios)”, garante.

O discurso de Hambo segue no mesmo caminho.

Bebote vive há alguns anos uma guerra aberta contra Javier Cantero, presidente do Independiente. O homem que cortou os privilégios dos barras bravas. Segundo o cartola, entre outubro e dezembro de 2012, US$ 55 mil (cerca de R$ 125 mil, em valores atuais) das contas do clube foram destinados para Bebote.

Pela sua ausência dos estádios, a organizada do Independiente se dividiu em dois grupos. Os fieis a Álvarez e a barra de César Rodríguez, o Loquillo. Em uma das brigas entre os dois grupos, Rodríguez foi baleado. Neste ano, os dois “líderes” fizeram um pacto de não agressão, o que guindou Bebote de volta ao comando.

Possível “turista” no Brasil em junho, Álvarez disse publicamente que daria três tiros no colombiano Fabian Vargas, se este fosse jogar no arquirrival Racing (“Dois na perna direita e um nos testículos”, jurou).

Já xingou e ameaçou Cantero publicamente. Diante das câmeras de televisão, mostrou ossos para cachorros pela janela do carro. É uma ameaça velada aos jogadores do Independiente, que está na segunda divisão e corre risco de não voltar à elite. A cena faz alusão a até agora não explicada cena de cachorros enforcados nos arredores do Estádio Libertadores da América.

Aparece sempre mascarado ou encapuzado porque sabe que isso potencializa sua fama. Também não quer ser associado à violência, apesar de tudo. Ganhou 8 mil pesos (R$ 2,3 mil) de indenização da TV América porque lhe mostrou, de cara limpa, em matéria sobre brigas de torcedores.

Em novembro do ano passado, Claudio Cancio, secretário administrativo do Independiente, sofreu assalto em sua casa, em Buenos Aires. Sua família foi mantida refém por quase uma hora. Foram levados US$ 4 mil e 10 mil pesos (R$ 12 mil no total) e ele acusou os barras bravas do time. Lembrou que na semana anterior, Bebote o havia abordado nas cercanias do estádio e dito “não estar conseguindo segurar mais os companheiros (de torcida)” que queriam “pegar” a Cancio, responsável pela segurança no estádio. Álvarez nega qualquer participação no caso.

Como qualquer líder de barra, ele controla a venda de ingressos no mercado paralelo, exige dinheiro a jogadores e dirigentes para viagem a partidas fora de casa e comanda negócios nos arredores do campo, como flanelinhas e ambulantes. Álvarez é amigo de vários boleiros. Já foi à Inglaterra ver Kun Aguero jogar pelo Manchester City. Exibe, em sua conta no Facebook, grande coleção de camisas, todas dadas pelos próprios atletas. Tem medalhas de competições, geralmente só dadas ao elenco ou membros da comissão técnica.

Bebote faz parte da HUA desde o início. Foi um dos seis barras a visitarem a Casa Rosada, sede da Presidência da República, para fechar acordo pelo apoio do governo federal, em 2009. No ano seguinte, jogadores, dirigentes, empresas e políticos contribuíram com a viagem dos torcedores para a África do Sul. O procurador-geral Eduardo Casal quer que a Corte Suprema de Lomas de Zamora investigue Bebote e o ex-presidente do Independiente, Julio Comparada, por assédio aos atletas, que teriam sido coagidos a dar dinheiro para que os barras fossem ao Mundial. Também denunciar desvio dinheiro do clube para o mesmo fim.

Em 2014, a grande fonte de financiamento será os aliados da presidente Cristina Kirchner, que já elogiou publicamente os barras bravas e disse que eles “não são tão ruins assim”. Bebote é candidato a ser um dos cabeças desse movimento e estar no Brasil em junho. Se confirmar suas intenções, logo pode ser presidente de um dos principais clubes sul-americanos.

“Financiamento da HUA não tem nada a ver com o governo. É feito apenas com a venda de camisetas e colaboração de jogadores. Álvarez não tem nada a ver com isso”, desmente Débora Hambo.