O gol que (não) rebaixou o Man United

Por Alex Sabino
Denis Law
Denis Law foi chamado para participar do sorteio de grupos da Liga dos Campeões da Europa

O dérbi de Manchester, a ser disputado nesta terça-feira, desperta sempre a lembrança de uma das maiores lendas do futebol britânico. Denis Law, integrante da santíssima trindade do clube, rebaixou o Manchester United em 1974.

Embora ele tenha, de fato, feito o gol que selou a queda dos Diabos Vermelhos para a segunda divisão, o time seria rebaixado com o empate. Mesmo que ganhasse, a combinação de resultados nas rodadas seguintes condenaria a equipe. O desvio de calcanhar de Law, que passou por entre as pernas do goleiro Alex Stepney, definiu o placar de 1 a 0. A torcida invadiu o campo, na esperança de que o jogo fosse abandonado.

Cantavam: “vocês não podem nos rebaixar. Nós somos o Manchester United.”

Como várias vezes acontece, a história é boa demais e, se não é verdade, azar da verdade. O desvio do escocês, dentro da área, entrou para a história como o “lance que rebaixou o United”. O fato de ter sido marcado por ele, o Rei de Stretford End [como se chama a arquibancada atrás do gol em Old Trafford], apenas deixa o causo mais delicioso.

Assim como o que aconteceu depois. Visivelmente aborrecido, Law não comemorou o gol, apesar de ser cercado pelos companheiros. Abaixou a cabeça, saiu de campo, obrigando que o técnico o substituísse e nunca mais chutou uma bola como profissional por qualquer clube.

“Eu me senti deprimido. Depois de 19 anos dando o melhor de mim para fazer gols, marquei um que não gostaria de ter feito. Eu estava inconsolável. Não queria que aquilo acontecesse”, confessou o artilheiro.

A situação do clube de Old Trafford era tão feia que, no final de 1973, o artilheiro do time no Campeonato Inglês era Alex Stepney, com dois gols de pênalti.

Não que o lance tenha diminuído a adoração que os torcedores do Manchester United sentem por Law. Em frente a Old Trafford, está a estátua dele ao lado de Bobby Charlton e George Best. O trio que com fez o clube se reerguer das cinzas do acidente aéreo de Munique, em 1958, e se tornar o melhor da Europa dez anos mais tarde. Mesmo que o centroavante não tenha jogado a final contra o Benfica por estar lesionado.

Pouco importa que um não gostasse do outro. Denis não se dava bem com Best e os dois detestavam Charlton. Apelidaram-no de “Sir Robert” e o consideravam um homem do estabilishment, não um dos jogadores.

Quando “rebaixou o United”, Law estava com os joelhos em frangalhos. Não mostrava a habilidade e o faro para o gol que o fez Sir Alex Ferguson confessar que “ele é o maior jogador da história da Escócia. Meu ídolo de infância”.

Na primeira passagem pelo Manchester City (1960-1961), anotou 21 gols em 44 partidas, antes de ser vendido ao Torino. Teve dificuldade para se adaptar ao estilo defensivo do futebol italiano e, após sofrer grave acidente automobilístico em que milagrosamente saiu com apenas alguns arranhões, foi vendido para o Manchester United por 115 mil libras. Na época, a maior transação da história do futebol britânico.

Alternou brigas com o técnico, Matt Busby, por aumento de salário, com gols. Muitos gols. Fez 171 entre 1962 e 1973. Mas após a conquista do título europeu de 1968, os joelhos já não o permitiam ser o mesmo jogador eleito melhor da Europa em 1964. Orgulhoso de ser escocês, Law fez questão de ir jogar golfe enquanto acontecia a a final da Copa do Mundo de 1966. Até hoje diz que aquele foi um dos “dias mais negros” de sua vida, por causa do título conquistado pela Inglaterra.

A ironia é que, antes do início da temporada 1973-1974, foi liberado de graça pelo técnico Tommy Docherty. Acabou assinando contrato com o Manchester City e fazendo gol que (não) rebaixou o Manchester United.