A mesma rivalidade. Outro futebol

Por Alex Sabino
Depois de abandonar o futebol, Evaristo virou técnico e trabalhou por 27 anos
Depois de abandonar o futebol, Evaristo virou técnico e trabalhou por 27 anos

 

Vila Belmiro, 1993. Evaristo de Macedo, técnico do Santos, está em pé, a beira do campo. Chove na Baixada e seu time encontra dificuldade para vencer o Novorizontino. Um torcedor, atrás do banco de reservas, não poupa o treinador.

“Evaristo, seu burro!”

Evaristo olhou, mas continuou de braços cruzados. Impassível.

“Evaristo, seu burro!”

A chuva aumentou.

“Evaristo, seu burro!”

“Eu sou burro? Ganho muito bem para estar aqui. Burro é você que gastou dinheiro para tomar chuva e ver este time de merda!”

Vinte e um ano depois, é o mesmo Evaristo de Macedo que atende ao telefone na sua casa, no Rio de Janeiro, para falar sobre o clássico entre Real Madrid e Barcelona. Aos 80 anos, ele ainda tem o raciocínio rápido de quem ironizou o torcedor santista, na década de 90.

“Fala rápido, vai… Vamos lá. O que você quer saber?”, pergunta, ordenando.

Toda semana que antecede partida entre os eternos rivais espanhóis, o telefone não para de tocar. Não são apenas chamados da imprensa brasileira. Conhecido apenas como Evaristo na época de jogador, foi atacante dos mais temidos da Europa nas décadas de 50 e 60. Está no hall da fama de Barcelona e conseguiu ir para o Real Madrid sem grandes traumas. Não é um feito qualquer.

Fez 78 gols pelo clube catalão, entre 1957 e 1962. Transferiu-se para o Real Madrid e teve problemas de lesões. Jogou 17 vezes e fez 15 gols em três temporadas. Se hoje, os clássicos marcam o confronto entre Messi e Ronaldo, na época de Evaristo, a rivalidade era outra: Kubala x Di Stefano.

*

O senhor jogou em dois grandes times de Real Madrid e Barcelona. Como nós podemos comparar o momento atual das duas equipes dentro da história do futebol?

EVARISTO – Sabe qual é o problema? O futebol de hoje não é o mesmo da minha época. Tudo mudou muito. Mas eu acho que, se analisar os desempenhos, a qualidade dos jogadores, nós tínhamos as mesmas virtudes que eles têm hoje.

Inclusive de visibilidade?

Não. É preciso guardar as devidas proporções porque não havia televisão. A TV é o veículo que faz o jogador ser muito mais visto mundialmente. Hoje em dia, é mais fácil assistir a uma partida do Barcelona do que a do Flamengo. Isso proporciona também mais fama e dinheiro. Muito mais dinheiro.

A rivalidade Kubala e Di Stefano pode ser comparada ao que se diz hoje a respeito de Cristiano Ronaldo e Messi?

Eu joguei com Kubala e  Di Stefano. Eram dois jogadores fantásticos. O Di Stefano é mais conhecido mundialmente, mas o Kubala era fenomenal. Eles não eram pessoas que estavam preocupadas umas com as outras. Não havia esse oba-oba que existe hoje, entende? Claro, na semana em que eles iam se enfrentar, havia mais mídia, mais discussão, afloravam algumas coisas. Mas não chega perto do que é hoje.

Afloravam algumas coisas entre os dois?

Tentavam criar na verdade. Porque fora de campo, eles se davam bem e jogavam juntos na seleção espanhola.

Há quem acredite que Messi é o maior jogador de todos os tempos. Nos últimos seis anos, ele e Cristiano Ronaldo têm monopolizado as atenções no futebol mundial. É possível colocá-los entre os maiores de todos os tempos?

São grandes jogadores, isso é óbvio. Mas eu não consigo fazer esse ranking porque o futebol de hoje é completamente diferente daquele praticado na minha época. Eu tenho dificuldade em fazer esse tipo de comparação. Até porque, hoje as coisas tomam um vulto muito grande. As notícias viajam muito rapidamente.

 A última lembrança que temos de um jogador que saiu do Barcelona para ir ao Real Madrid é a de Luís Figo. E a reação da torcida na Catalunha foi furiosa. Como foi recebida a decisão de ir para o maior rival do Barça?

Não enfrentei nenhum problema. A torcida não ficou com mágoa alguma. Sempre fui muito bem tratado.

E por que trocou de equipe?

Eu estava bem no Barcelona, mas trocou a diretoria e quiseram contratar novos jogadores estrangeiros. Exigiram que eu me nacionalizasse espanhol. Deixei bem claro que não ia fazer aquilo. No Madrid, não. Falaram que eu apenas teria de ir para lá e jogar, sem se preocupar com nada disso. Eu fui.